Sobrevivi…

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Soube outro dia a respeito do trabalho de Fabrício Carpinejar, poeta e escritor. E bastou ler um parágrafo seu para que eu me apaixonasse por seus escritos.

Em uma de suas crônicas, ele menciona que seu pai o chamava de Wolverine porque enxergava nele um alto poder de regeneração interna. Encantava-se com a capacidade que Fabrício tinha de cair e levantar.

Isso é resiliência, pensei comigo mesma. A capacidade que um material possui de sofrer extrema pressão e depois voltar ao seu estado anterior.

Num dos trechos da crônica, ele diz:

“Não há perda que seja total. Alguém pode me machucar terrivelmente, mas não me leva. Posso permanecer sequelado, mas sei cavar a terra por dentro da terra. Cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seca.”

Eu me vi nessas palavras. Lagrimei. Quanta poesia nelas cabe!

E logo depois ele revela: eu sobrevivi a tanta coisa. E inicia uma lista nada agradável de tudo que enfrentou para sobreviver: bullying, descrédito, drogas, tentativa de suicídio, perdas.

E pensei: eu também tenho minha lista. Todos temos. E se você me permite o empréstimo da idéia, Fabrício, eu também quero fazer minha lista.

Eu sobrevivi a uma infância sem afeto paterno.
Eu sobrevivi a agressões de todas as formas.
Eu sobrevivi à morte do meu irmão.
Eu sobrevivi a não sentir-me amada pelo meu pai.
Eu sobrevivi a ser sempre preterida pela minha irmã caçula.
Eu sobrevivi à luta pelo meu espaço.
Eu sobrevivi à luta para não ser oprimida.
Eu sobrevivi à luta para ingressar na faculdade pública.
Eu sobrevivi a um relacionamento complicado e desgastante que minou meu relacionamento com toda minha família.
Eu sobrevivi à uma gravidez não planejada, aos 21 anos, quando todos os meus planos profissionais traçados, tiveram que ser ‘esquecidos’.
Eu sobrevivi a ser expulsa de casa por conta dessa gravidez.
Eu sobrevivi ao medo de morar sozinha, com um bebê, aos 22 anos.
Eu sobrevivi à luta para passar num concurso público na busca pela minha independência financeira.
Eu sobrevivi a quatro anos tortuosos de espera pela minha nomeação.
Eu sobrevivi a rompimentos de amizades que me eram tão caras.
Eu sobrevivi ao diagnóstico de câncer do meu marido, grávida do terceiro filho na época.
Eu sobrevivi à luta contra o seu câncer.
Eu sobrevivi à sua morte.

E hoje estou aqui, diante dessa realidade de sobreviver sem ele e com meus filhos, na certeza de que não vou sobreviver.

Mas olhando essa lista agora, nesse momento, sobreviver já não me parece impossível.

Então também repito o que Fabrício escreve ao final de sua crônica:
“Sobrevivi, vou sobreviver, mesmo que não acredite na hora.”

E tal qual Fabrício, eu também não imaginava onde estavam as minhas garras de Wolverine. E pasmem! Elas estavam no mesmo lugar das do Fabrício: nas palavras, na linguagem, elas que são, em última análise, minha força e meu refúgio.

6 comentários em “Sobrevivi…”

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