Sobre meu irmão

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Hoje parece que chorei de novo sua morte, meu irmão. Não foi apenas um choro por ter-me lembrado de sua partida, mas um sentimento diferente, como se hoje tivesse recebido a notícia, como se hoje fosse 21 de setembro de 1991. Não sei dizer por que isso aconteceu depois de tantos anos. Há muito tempo, essa era a data que lembrava o fato mais marcante de minha infância e adolescência, mas confesso que já não sentia sofrimento, apenas saudade. Seria capaz de dizer que mal me lembrava de sua ida no transcorrer de meus dias. E eis que esse sentimento de profunda perda me invade, tristeza doída, saudade de um tempo sem lembranças tão vivas. Vontade de conversar com você, de falar-lhe como cresci, de como teríamos sido bons amigos e de como somente hoje tenho a exata dimensão de sua partida. Queria tanto estar diante de você para desculpar-me por não ter lançado sobre sua morte o olhar que hoje a maturidade me permite. Meus dias, após sua morte, foram tristes: nossos pais, transtornados, pareciam secar após tantas lágrimas chorar, principalmente mamãe. E eu não sentia tudo aquilo, comecei a cobrar-me o desespero. Todos me observavam e eu não sabia como deveria agir, se os sentimentos não aparecem, fica difícil forjá-los. Minha mãe fez questão de manter nossa rotina, não sei se foi bom ou ruim. Onde ia, as pessoas olhavam-me com o canto dos olhos, como quem se perguntava como eu poderia estar ali após dias da morte de meu irmão. Eu percebia, e até concordava, mas como não tinha respostas, resolvi seguir em frente. Eu sei e você sabe também que, meses depois, eu comecei a chorar sua morte no meu travesseiro. Dormíamos juntos. Sem espaço para pedir socorro, debulhei-me em lágrimas nas noites que se seguiram, demorava a dormir com você em meu pensamento. Era como se o meu coração houvesse negado a tragédia, para reconhecer a perda apenas tempos depois. Talvez a forma abrupta como tudo aconteceu, talvez a maneira atabalhoada como a notícia me foi dada, não sei. O que sei é que meu coração recusava-se a aceitar sua morte e só abriu a porta depois de muita insistência. A realidade da sua ausência não parava de bater. Gostaria de desculpar-me também pela demora a revisitar a ocasião de sua ida. Há muito tempo já poderia ter feito isso, mas, como dito, somos reféns de nosso sentimento que - opinioso e mimado - aparece quando quer aparecer. Hoje ele veio e não me fiz de rogada, estou aqui a remoê-lo, chorando sua saudade, sua partida, seus sonhos que não puderam ser realizados, vendo seus amigos que não o esquecem. Uma mensagem de um amigo seu fez descer lágrimas de meus olhos. Ainda mais. O quanto me comoveu essa curta mensagem, tão curta que olhos desatentos poderiam duvidar de sua capacidade de emocionar alguém: “Por favor, mande um abraço a seus pais por mim hoje.” Essas palavras trouxeram você de volta para mim, parecia que estava novamente ali na minha frente. Eu, já cheia de emoção por conta do dia saudoso que vivia, respondi: “Ainda outro dia revia fotos antigas, revisitava o passado, e quando me dei conta, estava lagrimando ao ver meninos recém-saídos das fraldas, com farda do Colégio Militar. Hoje vejo vocês e penso que ele também poderia estar por aqui. Depois de tantos anos, a maturidade faz-nos ver o que fica: a saudade e o aprendizado. Obrigada por lembrar-se de meu irmão. Hoje mesmo darei um abraço em meus pais por você.” Ele então, ainda conciso, respondeu: “Todo ano, nesta data, me dá um aperto no coração. Algumas pessoas marcam por tempo indeterminado e vivem saudáveis na nossa lembrança.” Algumas pessoas marcam por tempo indeterminado e vivem saudáveis na nossa lembrança. É verdade. Assim como existem pessoas que ficam a vida inteira ao nosso lado e não deixam sequer lembrete de sua passagem, há aquelas que nunca mais abandonam nossas lembranças. Creio que você foi assim para o amigo, afinal o que de tão extraordinário teriam vivido aos dezesseis anos de idade, que possa - dezenove anos depois - motivar as palavras por ele escritas? De extraordinário mesmo, nada. É que as coisas ordinárias foram vividas com extraordinária cumplicidade e amizade, suficientes para manterem vivas lembranças que não são alimentadas há anos. Quisera eu, meu irmão, ser como você, marcante a esse ponto. Não pelos louros, mas pelo privilégio de saber-se capaz de cativar com tanta profundidade. Será que cativarei dessa forma pelo menos o coração de meus filhos? Não sei. Você era mesmo cativante. Pena que, de verdade, não nos conhecemos, éramos crianças, brigávamos tanto. De nossa essência, tínhamos apenas notícia. Era no futuro que estava marcado nosso encontro de amizade. Mas o futuro nos foi tirado: eu cresci e você já não está mais aqui. Nosso encontro então foi cancelado, poderão alguns dizer. Mas não, minha fé não me permite essa conclusão para essa carta tão cheia de emoção. Nosso encontro continua marcado para o futuro, porque creio que um dia, de fato, terei essa conversa com você e poderemos então olhar para sua partida de outra forma, pensar como éramos jovens e como tudo aquilo nos afetou a todos, ver-nos amadurecidos e, aí então, sermos amigos. Nesse dia, não haverá espaço para lágrimas, como as que agora insistem em cair de meus olhos. Seremos só sorrisos. Todos nós. Apesar do sofrimento que experimento, sou grata por sua visita. Acredito que, depois de tantos anos, hoje nos reencontramos e pude reviver você aqui comigo. De verdade, gostaria que você voltasse sempre.

8 comentários em “Sobre meu irmão”

  1. Francisco José Christo Fernandes - 2 de outubro de 2015 11:53

    Simplesmente fantástico, sem palavras para descrever qualquer coisa, vc escreve com a Alma mesmo. Deus lhe deu esse dom, procure saber por que e para que.

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    1. salvia - 2 de outubro de 2015 17:48

      Acredito que Ele deu-me o dom para partilhar com os outros. Abços

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  2. Ducilene Pinheiro - 23 de setembro de 2015 10:36

    Que lindo.
    O senhor Jesus, continuará presente na vida de vocês, acalentado,confortando e mesmo com essa separação aumentando um amor inexplicável, de filho,irmãos e amigos.
    Como és forte.D. sálvia.

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    1. salvia - 24 de setembro de 2015 10:04

      Obgd pelas palavras, Ducilene! Abraços

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  3. Auxiliadora - 23 de setembro de 2015 09:27

    Emocinante….o Celso era simples e humilde. .sempre lembramos dele com muito carinho. …Parabéns Salvia você é especial. .

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    1. salvia - 24 de setembro de 2015 10:05

      Meu irmão deixou saudades, Dora!

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  4. Eliane Gurgel - 22 de setembro de 2015 12:21

    Aquele 21 de setembro tb me marcou…lindas suas palavras cunha! Bjo grande

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    1. salvia - 22 de setembro de 2015 16:39

      Obgd pelas palavras, Eliane!

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