Sobre descer do salto

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Outro dia uma conhecida comentou uma situação pela qual passou. Bem comum até.

Depois de alguns dias de paquera com um carinha legal, troca de mensagens, passeio no parque e cafés de fim de tarde, eles ficaram. O rapaz andava ainda enrolado com a última namorada, rondava perto a possibilidade de um retorno. Ela sabia, mas resolveu apostar. Perdeu a aposta. Uns dias mais e o pretendente ficou esquivo, prenunciando o fim.

Às vezes o que falta aos homens é feeling para perceber se a mulher com quem pretendem namorar, ficar ou seja lá o que for, está na mesma deles. Não há problema algum se o carinha quer apenas ficar. Ele só precisa perceber se a mulher quer o mesmo. O combinado nunca sai caro.

Se ela demonstra que quer outra coisa - e, creia, nós sempre demonstramos o que queremos -  não se acanhe, recolha seus pertences e caia fora. É mais honesto com ela. É mais honesto com você. Não será difícil encontrar alguém que queira o mesmo que você.

Pois bem. Após o sumiço do moço, soube-se que reatara o antigo namoro. Não por muito tempo. Logo em seguida terminaram outra vez. Ele retomou o contato com minha amiga.

Nos dias que se seguiram, os amigos comuns aos dois marcaram uma viagem, ambos foram, e ao chegarem no destino a turma reuniu-se para um almoço. No restaurante, minha amiga encontra o futuro ex-pretendente na mesa com sua namorada. A anterior? Não! Outra. Isso mesmo. Uma nova namorada. Chocada, ela sentou-se à mesa, boca selada pelo espanto. Ele, por sua vez, acusado por sua atrofiada consciência, tentava puxar assunto, exaltava as qualidades da nem tão amiga assim, e de tão perdido, acabou deixando a nova namorada de lado.

Durante todo almoço, ela se debateu sobre o que fazer. Levantar? Gritar? Chamar a polícia? Constrangida a não mais poder, no final do fatídico evento, a raiva entrou em cena e decidiu a parada, fazendo minha doce colega vociferar na mesa: faço isso para meus amigos, mas não para você, que nunca foi meu amigo.  Eu, particularmente, adorei esta parte.

Pronto! Foi o suficiente para ele iniciar uma DR na frente de todos, inclusive da namorada, que levantou-se da mesa - era o mínimo. Minha amiga desceu do salto, falou o novo e o velho, o que queria e o que não queria. Terminou, levantou e foi embora. Se eu estivesse lá, teria gritado: "Bravo! bravo!"

Cada vez mais me convenço da importância de colocar para fora sentimentos que nos atormentam. Não adianta que outros achem que você não deve, não adianta querer sair de boa moça. Nada consola até que se diga o que é preciso ser dito.

É claro que nem todo mundo tem que ouvir nossos desaforos, e nem toda relação deixa espaço para lavagem de roupa suja. Se o carinha da balada não ligou, se o que houve foi superficial, geralmente não há nada a ser dito. E para saber diferenciar, só usando o velho bom senso.

Do contrário, deve-se sim descer do salto e libertar seu inconformismo da clausura. Eu mesma vivi situação similar: acorrentei as palavras na goela por dois meses e só consegui adoecer e afundar-me numa cama. No dia que desentalei, senti um enorme peso sair dos meus ombros, alívio imenso, e no dia seguinte consegui levantar da cama. Lição mais que aprendida.

Então grite, fale, jogue na cara se for o caso. Passe o bastão: que o outro receba suas palavras e faça com elas o que quiser. Se ele julgou-se no direito de lhe empurrar goela adentro toda sua inabilidade em conduzir relações, sinta-se você no direito de embalar tudo em meia dúzia de desaforos e arremessar de volta. Vire-se de costas, suba novamente no salto e siga em frente.

Mais vale descer do salto e preservar o coração, que estar sobre ele andando por aí toda despedaçada.

Um comentário em “Sobre descer do salto”

  1. Francisco Christo - 7 de outubro de 2016 14:19

    ” O poeta é um fingidor;
    Finge tanto que finge;
    Ser dor a dor que deveras sente”
    Fernando Pessoa.

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