Ouro e areia

Posts

Uma vez um amigo me disse que as pessoas andam por aí como se fossem sacos pretos com um quilo de areia ou de ouro. Como o conteúdo está dentro do saco preto, à primeira vista não sabemos o que há lá dentro. Aparentemente, todos valemos a mesma coisa: um quilo. Levar um ou outro para casa e para a vida dará no mesmo, serão iguais em qualquer balança do mundo.

E por nós passam quilos de areia e de ouro todos os dias, mais areia do que ouro, claro, porque daquela há mais no mundo.

Sei que não poderíamos sair abrindo qualquer saco preto que aparecesse pela nossa frente. Não há espaço para isso no cotidiano de todos nós. As relações humanas são graduadas. Há o transeunte, o caixa do banco, a gerente da loja, nosso amigo, nosso filho, nossa mãe.

Na superficialidade de nossos dias, o cotidiano não pede nem permite o conhecimento profundo e cuidadoso de todos que cruzam nosso caminho. Por isso mesmo, devemos tratar a todos com cordialidade e educação e, quando possível e necessário, certa atenção e cuidado. Isso é bom, tratando-se de ouro ou areia.

Assim como não podemos olhar de forma aproximada para todos que cruzam nosso caminho, também nem todos que se aproximam de nós podem ver o que há em nosso interior. Às vezes até querem, mas não deixamos. Às vezes até deixamos, mas não querem. E aí seguimos na vida, tratando ouro como areia e areia como ouro e também sendo tratados como ouro ou areia, independente de nossa verdadeira essência. Abrir o saco e ver o que há dentro requer tempo e disposição, artigos de luxo em nossos dias.

Não sei o que é pior: tratar ouro como areia ou areia como ouro.

Tratar ouro como areia, além de injusto, é extremamente triste. Sim, porque o ouro é valioso, tem brilho, encanta, é raro e, além disso, passou pelo fogo para revelar o que tem de melhor.

As pessoas que são sacos de ouro adornam nossa vida, agregam valores, acrescentam áurea. Faz tão bem tê-las por perto, seja a que título for! Com toda essa capacidade de engrandecer os que gravitam ao seu redor, de repente, são tratadas como areia por quem tem pressa, não aquela pressa que nos agita para não perdermos um compromisso, mas a pressa de vida, aquela que nos cega, impedindo-nos de perceber os detalhes e os olhares.

E tratar areia como ouro? Que tal dar à areia, que facilmente se esvai por entre os dedos e é levada pelo vento, o mesmo valor do ouro? Injusto e triste também.

Olhamos de relance, pensamos ver algum brilho e pronto: os sacos de areia vão parar no nosso porta-joias. Nem sabem por que estão lá! É confortável ser bajulado, mesmo quando sabemos que não há razão para tanto.

E será que todos os sacos de areia se veem assim? Enxergam-se como areia ou se pensam ouro? Já falei isso mil vezes, mas gosto de repetir: nem nós nos conhecemos.

Disso tudo, fica o alerta. Sejamos mais cuidadosos e sensíveis em nossas relações, para percebermos a diferença entre o metal precioso e a substância arenosa, para não corrermos o risco de trazer para nossa vida conteúdo sem valor, e nem descartar dela pessoas que realmente façam a diferença.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *