Os Livros e os Tapetes

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Em uma viagem conheci a tapeçaria turca. E descobri que tecer tapetes é como escrever livros. Incrível perceber como todos os tipos de arte se parecem, encontram-se em algum ponto. As turcas, ao tecerem, utilizam o nó duplo, o mais trabalhoso dos nós, aquele que gera a trama mais densa. O tempo para tecer um tapete turco é sempre muito longo: alguns exigem 6 meses; outros até 45 meses. Isso mesmo: mais de três anos! E diz a tradição que a mulher turca, no ato de tecer, transmite seus sentimentos, passa para a trama do tapete sua alegria, sua dor, júbilos e esperanças. Por isso é trabalho que não pode mesmo ser valorado. Nenhum tapete é igual porque nenhum ser humano é igual. E mesmo sendo tecido pela mesma pessoa, ela o faz em momentos diferentes de sua própria existência. Assim é que cada tapete é único. E pensando em livros e tapetes, as semelhanças saltam aos olhos: palavras e fios de seda servem ao mesmo propósito. Também na arte de escrever vão-se os sentimentos. Também um livro demora meses e meses para ser tecido. Também há nele cores e sabores. É expressão genuína de nossa arte em certo momento. E foi assim que apaixonei-me por tapeçaria. Por encontrar nela todos os elementos que na escrita me fascinam. Eu poderia debruçar-me por meses na feitura de um livro, escrevendo, lendo e relendo, retirando excessos, enriquecendo o jogo de palavras e metáforas. Assim a turca debruça-se sobre o tear, desfaz o nó mal feito, escolhe a cor, avalia a harmonia da trama. Tapete ou livro? Livro ou tapete? Tudo é arte. Ambos contam estória, em ambos há aprendizado. Eu indicaria aquela turca que conheci para o nobel de literatura. Sem pestanejar! E sim, eu comprei meu tapete turco

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