O Oncologista

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Na primeira vez em que fui ao consultório do oncologista que acompanhava meu marido, fiquei um tempo na sala de espera. Estava apenas com minha mãe, pretendia ter uma conversa mais aberta e franca sobre o caso. Ainda atordoada com tudo que havia acontecido em nossas vidas, sentei-me e comecei a observar as várias pessoas que ali estavam, quase todas sem cabelo pelo efeito da quimioterapia, umas mais velhas, outras mais novas, algumas debilitadas, outras nem tanto, homens, mulheres, todos travando a mesma batalha que nós havíamos iniciado há pouco mais de um mês. Então fiquei imaginando a vida de cada uma daquelas pessoas, como o câncer teria atingido a cada uma, como a família estava lidando com tudo, quais seriam as reais chances daquelas vidas ali sentadas, assistindo à TV ou lendo revista. Tive vontade de sentar ao lado de cada uma e perguntar se o câncer tinha feito com a vida delas o mesmo que estava fazendo com a minha: passando um trator em tudo que foi construído e deixando pedaço de gente pra todo lado. Como não pude realizar meu desejo de iniciar uma sessão de entrevistas, comecei a pensar em quem recebe toda essa carga de sofrimento: o oncologista clínico. Então fiquei pensando: quem, em sã consciência, escolhe ser oncologista? Quem opta por acordar todos os dias e encontrar pessoas que têm câncer, com todas as mazelas e sofrimentos que essa doença traz? O diagnóstico, os tratamentos clínicos, os efeitos colaterais, as intercorrências, as decisões, tudo passa pelos seus olhos e pela sua mão. Como não ser atingido com tanto sofrimento ao seu redor? A essa altura, já tinha chegado à conclusão de que era melhor ser gari! Sem querer desmerecer a profissão, que também tem seu valor, claro. Nessa hora, quando pensava como deveria ser maravilhoso recolher o lixo das cidades, fomos chamadas para a consulta. Entrei já cumprimentando o médico e perguntando: “Doutor, quem, em sã consciência, escolhe ser oncologista? Mesmo querendo ser médico, ainda há tantas especialidades dentro da medicina! Eu preferiria ser gari!” Ele, muito calmo e sereno, aliás, como se revelaria dali em diante, nem me respondeu, apenas deu um sorriso. E logo passamos a falar sobre o caso do meu marido. Foram nove meses de tratamento, o câncer era muito agressivo e meu marido, tragicamente, teve poucas chances de lutar contra ele. Isso era o que mais me doía: começar a luta de forma tão desigual. Durante esse período de extremo sofrimento, aquela minha pergunta que ficara sem resposta sempre voltava à minha mente: escolher ser oncologista. Mas, aos poucos, bem devagar, já dentro do meu processo de luto, a pergunta foi calando-se e a resposta foi aflorando dentro de mim. "Alguém escolhe ser oncologista por várias razões. Por inúmeras razões. Por contribuir para os avanços da medicina nessa luta, pela possibilidade de ofertar cura quando isso é possível, por poder guiar seus pacientes e familiares nesse processo, pela tentativa constante de impedir que a doença cruze sempre a linha de chegada, pela possibilidade de aliviar o sofrimento daqueles que não podem mais ser curados, por poder oferecer-lhes vida de qualidade até onde for possível, por aliviar suas dores quando a hora da partida se aproxima, pra fazer parte do processo, seja de vitória ou de derrota. Eu, como esposa de um homem com câncer e mãe de três filhos, tive a felicidade de ser acompanhada com carinho, cuidado e atenção. Sempre zeloso com as palavras e terno no olhar, o médico que eu conheci não me respondeu com palavras à pergunta precipitada que eu lhe fizera de forma tão açodada. Ele apenas sorriu. Preferiu responder-me com seu ofício, na prática, no cotidiano, na parceria, nas conversas sobre que caminhos tomar, no otimismo sempre presente, no compromisso com a profissão, na atenção redobrada nos momentos mais dolorosos, na sinceridade que permeava seu falar, na alegria e entusiasmo do olhar na hora da boa notícia e na incessante busca pelas palavras certas, escolhidas a dedo, na fatídica hora de dar a notícia que ninguém quer dar, e ninguém espera um receber. Pesar sentido com a gente. Foi assim que ele me respondeu. E hoje eu já não acho tão maravilhoso limpar as ruas da cidade e sei muito bem por que alguém escolhe ser oncologista.    

28 comentários em “O Oncologista”

  1. Manuel Cordeiro Soares - 15 de outubro de 2013 14:31

    Não sou médico, nem advogado,sou mais um paciente com câncer. Lendo os depoimentos de médicos e de pessoas que lutam com a doença em seus entes queridos,me propus a levar até vocês o meu caso. Sou portador de um “câncer de reto”, sendo esse o “segundo, pois antes tive um “câncer de intestino”. Vencemos, e logo depois de um ano e meio voltamos a batalha com esse último.Valorizo e exalto o tratamento com que meus médicos, ou melhor as médicas que me acompanham e tanto lutam para que esse mal não se alastre, pois não tem cura.Registro aqui, a competência e o profissionalismo com que essas pessoas se dedicam de tal forma, que as vezes chego a esquecer que tenho esse mal. Amanhã tenho quimioterapia,onde dois anjos enviados por Deus estão trabalhando muito também. São as enfermeiras; Claudete e Aline, do hospital Santa Helena, assim como as médicas, doutora isabel e a doutora Ana Cláudia,ambas oncologistas do mesmo hospital.Fica aqui então o reconhecimento à essa equipe que tanto faz com dedicação e amor, passando tudo isso para nós os pacientes. que Deus ilumine e proteja a todos(as) vocês.

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    1. Sálvia Haddad - 15 de outubro de 2013 19:18

      Querido Manuel, você me deixou sem palavras.

      Sua luta e sua rotina de tratamento aqui relatada, em muito me lembrou a caminhada de meu marido. Tão inglória essa doença… Quando pensamos que se foi, eis que surge novamente.

      Por favor, mostre às Doutoras Isabel e Ana Cláudia meu texto, escrito com tanto amor num gesto de extremo respeito ao trabalho de todos eles que nos ajudam a caminhar nessa via sacra tão dolorosa!
      Um abraço bem forte!

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    2. Adriana - 18 de outubro de 2013 15:31

      Manuel, só não concordo com a parte em que você diz que não tem cura. Tenhamos esperança, a medicina avança a cada dia, e muitos ficam curados. Muita fé e esperança pra você, sucesso, e que o seu caso seja um dos que se testemunhe a cura.

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  2. Rosiane - 12 de outubro de 2013 22:19

    Sou médica ginecologista e obstetra, e por, na época da formatura, não me sentir capaz emocionalmente de enfrentar tanto sofrimento, escolhi não fazer Oncologia. Escolhi trabalhar com o início da vida. Hoje, trabalho principalmente com prevenção do câncer ginecológico, essencialmente no serviço público, pois sinto que lá posso fazer a diferença na vida de tantas pessoas. Mas enganei-me ao pensar que fugiria do sofrimento alheio… às vezes, penso que a desesperança e as dificuldades destas pacientes me tocam tanto quanto ou até mais do que a presença do câncer. E todo dia peço a Deus para renovar minha vontade de ajudar estas pessoas. Peço para suportar tanta injustiça. Peço para não perder a fé e a esperança. Um abraço a todos.

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    1. Sálvia Haddad - 13 de outubro de 2013 08:57

      Querida Rosiane, o sofrimento humano permeia toda nossa existência. E até mesmo na minha profissão me deparo com ele. Com ele e com as injustiças. Seja onde for e como for, ginecologista, oncologista ou advogada, sempre há muito a ser feito! Não desanime! Um grande abraço!

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    2. Monique - 12 de outubro de 2016 22:34

      Olá Dra sei q é muito difícil trabalhar na oncologia. Porém percebo q precisamos muito de ginecologista oncológico. Eu tive câncer de colo de útero descobri em dez. 2014 no 5° mes de gestação e 6 meses se preventivo normal com inflamação leve. Até hoje tento entender mais não consigo. Tive meu bb com 36 semanas em março 2015 não pude fazer a Histerectomia pois ja estava avançado llB. Fiz 6 quimio, 28 radio 4 braquio terminei em agosto 2015. To fazendo acompanhamento a cada 3 meses porém todos ginecologista q vou me manda procurar ginecologista oncológico. E não encontro. Por esse motivo acho q deveria ter mais ginecolo nesse área. Pelo menos em minha Cidade não tem. Abc.

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  3. Janice - 12 de outubro de 2013 10:48

    Parabéns pelo texto….
    Aqui uma paciente que venceu a batalha contra o câncer….. nossa 27 anos atrás!
    Só tinha 19 anos quando tudo aconteceu…e quero dizer, talvez para ajudá-la a responder seus questionamentos com relação as famílias …
    Sim elas ficam sem chão, sem caminho, perdidas…..confusas. Querendo entender cada passo, cada dor, cada procedimento….
    A gente , o doente, percebe em cada olhar a dor escondida de cada um….
    Fiquei emocionada com o seu texto , pois me fez lembrar dos vários profissionais oncológicos e pacientes oncológicos que conheci .
    Os médicos oncológicos …… engraçado, talvez pela pouca idade, nunca me fiz esta pergunta…..mas tinha uma admiração… pensava…nossa como são inteligentes….
    Os corredores do INCA lotados de pessoas como você descreveu…..minha pergunta era porque temos que passar por tudo isso…..confesso que até hoje não sei. Mas posso te afirmar com toda certeza…que passa. E o que fica se torna mais forte, unido, carinhoso, dedicado……
    Enfim….também me lembrei dos meus oncologistas em especial de 3…Dra Maria Luiza Pessoa Cavalcanti, Dr Jose Marinaldo Lima e Dr Canary(radioterapia)…
    E o que acho é que eles, os médicos oncologistas, não escolhem…SÃO ESCOLHIDOS.
    Um forte abraço Janice

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    1. Sálvia Haddad - 12 de outubro de 2013 14:37

      Nossa Janice! Que belo depoimento! Você é uma sobrevivente! Suas palavras descrevem mesmo o que realmente se passa com a família de uma pessoa doente. E realmente, querida, eles são escolhidos! Obrigada por enriquecer meu texto e neu site com seu depoimento! Abços

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  4. Marcelo Sá - 11 de outubro de 2013 20:43

    Salvia,

    Meus parabéns pelo belo texto, sou cirurgião oncológico e penso todo dia o motivo pelo qual escolhi esta especialidade. O reconhecimento do meu trabalho pelos pacientes e que me move nessa batalha diária contra esta terrível doença. Um forte abraço.

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    1. Sálvia Haddad - 12 de outubro de 2013 08:06

      Olá Marcelo! Espero então que esse texto tenha lhe incentivado ainda mais a seguir em frente em sua profissão! Parabéns! Abço!

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  5. Marília Araújo - 11 de outubro de 2013 14:47

    Por ser médica intensivista,especialidade que muitos nem sabem que existe e que também recebe esta pergunta ,posso testemunhar que a presença do oncologista é uma dádiva dos céus tanto para pacientes e famílias,quanto para nós colegas.Geralmente somos “convidados” a participar destes momentos em horas muitas vezes ” intensivamente dramáticas” ápices de histórias muitas vezes longas e nas quais somos quase estranhos.A presença do oncologista torna tudo mais fácil.

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    1. Sálvia Haddad - 11 de outubro de 2013 15:12

      Sim, Marília! A eles, oncologistas, e a vc também, meu eterno respeito! Abços

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  6. Simone. Goiania-go - 11 de outubro de 2013 13:01

    Bem, nao sou oncologista clinica…. Sou nutricionista oncologica e acabei de receber o link da cronica por um amigo oncologista. Na Verdade O profissional q trabalha nessa area nao escolhe e escolhido pela oncologia .. Onde me sinto realizada en exercer minha profissao melhorando quadro nutricional dos meus pacientes…

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    1. Sálvia Haddad - 11 de outubro de 2013 14:39

      Simone, mesmo não trabalhando diretamente com o cancer, você também faz parte do grupo de profissionais da saúde que ajuda aqueles que sofrem com a doença. E sim! Também acredito que a oncologia escolhe os seus! Abços

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  7. Sérgio augusto - 11 de outubro de 2013 05:06

    Belo texto e linda descrição do oncologista , sou oncologista também , mas pediátrico . Parabéns

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    1. Sálvia Haddad - 11 de outubro de 2013 08:55

      Muito obrigada, Sérgio! A sua profissão é bela. A minha descrição apenas acompanha a beleza de sua escolha! Abços

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  8. Bruno pozzi - 11 de outubro de 2013 00:06

    Outro onco clínico aqui… Valeu 😉

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    1. Sálvia Haddad - 11 de outubro de 2013 00:34

      Bruno, vc é mais um dos homenageados! Abços

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  9. Flávio - 10 de outubro de 2013 17:36

    Parabéns pelo texto! Essa é a realidade do médico que poucos enxergam!

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    1. Sálvia Haddad - 10 de outubro de 2013 18:57

      Obrigada Flavio! Feliz de poder homenagea-los de alguma forma! E parabéns pela profissão! Abços

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  10. Thais - 10 de outubro de 2013 14:17

    Eu sou onco clinica! E já recebi essa pergunta várias vezes!

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    1. Sálvia Haddad - 10 de outubro de 2013 17:08

      Thais, pergunta respondida então? Espero que sim! E à altura de sua profissão! Abços

      Responder
  11. Renata Barreto - 10 de outubro de 2013 12:56

    Parabéns pelo texto e obrigada. Apesar de não lhe conhecer e de obviamente não ter sido a médica do seu marido, me senti representada. Tenho certeza de que escolhi ser oncologista por todas as rezões expostas acima e muitas outras.

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    1. Sálvia Haddad - 10 de outubro de 2013 17:05

      Querida Renata, fico lisonjeada com suas palavras. E essa crônica é sim uma homenagem à todos vocês, que além de terem feito a escolha pela medicina, que por si só já é uma profissão muito exigente, ainda optaram por trilhar os caminhos da oncologia. Só quem já esteve em contato próximo com o câncer pode medir a importância de sua profissão.
      Essa crônica está no meu livro, Mel e Fel – Retalhos de vida, à venda em todas as lojas físicas e virtuais da Saraiva,Cultura e Nobel.
      Abços e obrigada mais uma vez!

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    2. silvia - 10 de outubro de 2013 20:07

      olá dr Renata,vc não foi oncologista da nossa amiga Salvia, mas foi oncologista do meu marido…faço dela as minhas palavras não tirando e nem acrescentando um ponto.as vidas são ligadas de certa forma.diria mais são semelhantes no seu geral,porque temos que aprender algo mais grandioso nesta vida.também sou mãe de três meninas,viuva agora faz um ano. sinto saudades dele sim…e sei que sempre sentirei. mas apesar de tudo. tenho plena certeza que se não fosse Deus!e a espiritualidade pois sou espirita! e A DR.Renata Eiras martins que nos atendia como um anjo nos dando todo amparo e atenção e dedicação..eu não estaria hoje encarando a vida com a felicidade e a certeza que tudo foi feito e cumprido seu curso, pois meu marido durante o tratamento nunca reclamou nunca se desesperou ou deixou de acreditar e aceitar que tudo estava sendo feito com amor,respeito e otimismo da dr.Renata talvez ele não aguentaria mais que um mês..mais tivemos 1 ano para entender,aceitar lutar e vencer a doença.pois ficou a Fé a esprença e alegria que nada na vida e por acaso..pois sei que nós dois vamos nos encontrar um dia na espiritualidade….sou grata a Dr.lembro sempre em minhas orações..e vibro sempre pelo seu trabalho,e chamo minha pequena Ana Klara de Flor…pois sempre quando chegava em seu consultorio era dessa maneira que me-chamava. sempre que chegava das consultas comentava do carinho e atenção da doutora.bjos e muita e muita Luz!!! fique com Deus…

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      1. Sálvia Haddad - 10 de outubro de 2013 21:17

        Sílvia, que declaração de amor!!! É como você disse, o carinho, a atenção e o cuidado fazem toda diferença nesse processo tão doloroso!
        Renata, parabéns, querida! Depois desse depoimento não há dúvida de que você também é merecedora de todas as palavras que me inspiraram! Minha crônica também é pra você!

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      2. Renata Eiras Martins - 16 de outubro de 2013 13:38

        Silvia, fui avisada por colegas de trabalho sobre o seu depoimento… Fiquei extremamente emocionada… Ainda mais nesse momento em que a nossa profissão é tão massacrada pela política e mídia!
        Muito obrigada, com certeza fez meu dia mais feliz!
        Gde beijo,
        Renata Eiras

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        1. Sálvia Haddad - 16 de outubro de 2013 14:48

          Querida Renata,
          Cada belo comentário recebido sobre essa crônica escrita com tanta emoção me dá a certeza de que eu tinha mesmo que escrever sobre o caminho exigente e árduo que a medicina oncológica exige.. Eu também ando bastante emocionada com o retorno que este texto tem dado. Mostre a outros colegas para que eles também se sintam homenageados. Muito obrigada! Um abço

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