O vento lá fora

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Recentemente soube de uma produção que uniu dois grandes nomes do país – Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli –, a primeira um ícone da música brasileira, a segunda, imortal da Academia Brasileira de Letras. As artistas realizaram a leitura entusiasmada das obras do poeta Fernando Pessoa. “O vento lá fora” constitui-se pela costura dos poemas com conversas sobre a obra de Pessoa. O clima de intimidade e o humor na interação entre Cleonice e Bethânia dão ritmo e fluidez ao roteiro. A cereja do bolo é a trilha musical de Nelson Freire executando Liszt e Schumann e composições de Egberto Gismonti em flauta e violino, que enriquecem ainda mais as imagens, todas em preto e branco. O documentário traz consigo a paz que é peculiar à linguagem poética, o que se sente ao ouvir a declamação de Bethânia e Cleonice assemelha-se à escuta do cântico dos anjos. A descontração permeia as leituras, sem deixar de fora a postura respeitosa para com o sublime trabalho de um dos maiores poetas de todos os tempos. A admiração que ambas nutrem pela poesia é sentida pelo expectador de forma inacreditável. O encantamento ao declamar inebria quem as ouve. Nos 64 minutos da obra, estive em algum lugar que não neste mundo. É uma daquelas obras para se ver e rever e rever. Porque não encerra-se em si, tem o poder de ser eterna, como aliás soa ser o destino da poesia. Então minha sugestão é: marque um dia na sua agenda, tire as crianças de casa, e na companhia apenas de uma taça de vinho, viaje nas palavras de Pessoa, cantaroladas nas vozes dessas duas artistas de primeiro grandeza. Boa viagem!   CONSELHO, de Fernando Pessoa Cerca de grandes muros quem te sonhas. Depois, onde é visível o jardim. Através do portão de grade dada, Põe quantas flores são as mais risonhas, Para que te conheçam só assim. Onde ninguém o vir não ponhas nada. Faze canteiros como os que outros têm, Onde os olhares possam entrever O teu jardim como lho vais mostrar. Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém Deixa as flores que vêm do chão crescer E deixa as ervas naturais medrar. Faze de ti um duplo ser guardado; E que ninguém que veja e fite, possa Saber mais que um jardim de quem tu és — Um jardim ostensivo e reservado, Por trás do qual a flor nativa roça A erva tão pobre que nem tu a vês...

2 comentários em “O vento lá fora”

  1. Teresa Silva - 12 de maio de 2015 14:15

    Tudo me deixa muito emocionada. Quanta doçura. .. quanta beleza…

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    1. salvia - 13 de maio de 2015 11:13

      Sem dúvida, Teresa! Abraços

      Responder

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