O quarto escuro

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Um dia convidaste-me a entrar Relutei, mas teu olhar destemido, seguro E tuas firmes palavras insistindo o convite Não deixaram-me escolha Enchi-me de coragem e adentrei. Quarto  iluminado, cheio de vida, colorido Pequenos detalhes traziam charme e especialidade Lareira que, delicada e sutilmente aquecia o ambiente Na sacada, um canteiro de girassóis A trazer ainda mais luz Ao fundo, os pássaros cantavam Lugar de intimidades Confissões da carne e dos sentidos Tudo ali parecia ter um toque de magia. Mas um dia, de repente, o quarto esfriou A escuridão negava os detalhes E ao invés de inspirar sonhos e encantar os olhos O lugar despertava medo, insegurança. A sacada não reluzia como antes Os girassóis secaram O calor da lareira, por medo, foi-se Os pássaros calaram O que acontecera? Desesperadamente, chamei por ti! Apenas o silêncio respondeu Insisti, agora gritando. Pouco adiantou. Incrédula, percebi que tu não voltarias. Qual a razão da assodada saída? Então tu deixaste que o frio adentrasse, Que os detalhes perdessem sua singular graça, Que toda vida ali faíscando perecesse? Num passe de mágica, o lugar era outro. Estava, mais um vez, sozinha. Esqueceu-se de mim por lá E sendo frágil como os girassóis, morri por dentro. Se convidaste a entrar, não deverias anunciar a partida? Não sentiu-se no dever. Atravessou a porta Deixou a ausência para dar o recado. Ainda duvido que ela fale alguma coisa Ainda duvido que ela convença. Estou aqui onde você me deixou Onde faz escuro e frio. Olho pra todos os lados, não vejo a saída. Olho pra todos os lados, não sei se consigo sair. Estou algemada às lembranças do antigo lugar Talvez precise ficar mais um pouco Talvez precise ainda compreender essa partida. Talvez precise sorver desse lugar As lições que pairam no ar. Minha angústia, minha saudade Minha dor, minha irresignação Minha raiva, meu desespero Por mais que demore,  é aqui que vou deixar Para não mais voltar.

Um comentário em “O quarto escuro”

  1. Bianca Barreto - 9 de setembro de 2015 16:43

    Parabens, Salvia!!! Adoro suas publicações!!

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