O gay que salvou o mundo

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turin 1 Um de meus hobbies preferidos é cinema. E recentemente, como de costume, comecei a assistir os filmes indicados ao Oscar 2015. Um deles, O Jogo da Imitação (The Imitation Game), considero imperdível. O filme conta a história de Alan Mathison Turing, um certo matemático e cientista britânico, do qual jamais havia ouvido falar. Eu não sei como alguém de tal genialidade pode, por assim dizer, passar despercebido para maioria das pessoas. A História menosprezou a importância de sua produção científica quando lhe negou o lugar de destaque merecido. Considerado o Pai da ciência da computação, foi o precursor de projetos de inteligência artificial e conceito de algoritmo, definindo as bases da computabilidade. E como se não bastasse, trabalhou na inteligência britânica na segunda guerra mundial, na quebra de códigos da máquina alemã Enigma, fato bem relatado no filme. Seu trabalho abreviou a guerra em pelo menos dois anos, evitando a morte de milhares de pessoas, além de ter sido decisivo para a vitória dos Aliados. O quanto a humanidade deve à genialidade de Alan Turing? Muito, eu penso. E sabem como Turing foi recompensado por seus brilhantes e pioneiros trabalhos? Por ser homossexual – considerado crime no Reino Unido à época – Turing foi processado e condenado. Como pena, escolheu a castração química à prisão, para não se ver privado de trabalhar. Aos 41 anos, foi encontrado em sua casa, morto por ingestão de cianeto. A causa mais provável é o suicídio. Em 2009, o primeiro ministro britânico Gordon Brown fez um pedido oficial de desculpas pelo tratamento dispensado à Turing no pós-guerra. Em 2013, a Rainha Elisabete II concedeu à ele o perdão real pela condenação por homossexualidade. Como se este perdão pudesse apagar as angústias e dores que carregou até seus derradeiros dias. “Não, obrigado.” era por certo o que ele teria dito à misericordiosa Rainha. Uma vida que influenciou tantas outras e que continuará influenciando a de nossos filhos e netos. Qualquer um que já usou, usa ou usará um computador, deve isso à Turing. Um ser humano brilhante, sensível, de uma mente privilegiada, sendo mitigado por conceitos sociais hipócritas, que findam por atribuir mais valor à suposta conduta moral vigente, que aos belos e brilhantes préstimos científicos de um grande homem que legou à humanidade, nada mais nada menos, do que a atual base de desenvolvimento para todo e qualquer conhecimento humano. Eu, como parte desta sociedade que empurrou Turing para a ingestão de cianeto, sinto-me envergonhada. Alan não suicidou-se, ele foi assassinado por nós. E vou além, ele continua sendo assassinado em cada ser humano que subjuga o outro por diferenças. A redenção com Turing, portanto, não vai acontecer com perdões públicos ou desculpas oficiais. A sua redenção vai acontecer no dia em que nenhum ser humano sentir-se no direito de subjugar outro. Nesse dia sim, pagaremos nossa dívida. Um longo caminho pela frente, Alan. E se eu fosse você, não contava com isso.

7 comentários em “O gay que salvou o mundo”

  1. Francisco José Christo Fernandes - 18 de novembro de 2015 03:24

    Muito bonito o seu texto, muito bem colocada as palavras sobre o diferente na sociedade, seja gay, negro, religioso, mulher e etc.
    Entratanto no caso de Alan Touring várias coisas pesavam sobre ele a época em que decifrou o enigma e criou a máquina que podia ser reprogramada para decifrar as mensagens saida da enigma.
    talvez o fato que tenha mais pesado para o seu suicídio tenha sido o de ser o decifrador e fabricante da máquina para decifrar as mensagens saída da máquina alemã de códigos, pois jamais o serviço secreto britânico iria deixar este gênio trabalhar de forma independente, com certeza o MI-5 o monitorava diariamente e sabia de suas evoluções tecnologias.
    As suas diferenças , como o filme nos mostra jamais foram a causa de sua morte, e sim a sua genialidade , a recusa de trabalhar para o governo britânico e o silêncio sobre os segredos da segunda guerra mundial (WWII) pois em tempos de guerra e pós-guerra tudo é possível.
    Existe um ditatado muito antigo que diz , que a primeira vítima da guerra é a verdade. Pois caso Alan Touring não tivesse diferenças no seu modo de vida, o que é praticamente impossível, o serviço secreto inglês- MI-5, criaria para poder mata-lo ou fazer com que ele cometesse o suicídio disso não tenho dúvida, pois vários desses gênios da segunda guerra mundial, depois do seu término foram trabalha pras grandes potências em projetos bélicos, até os gênios alemães que eram nazista e contra os judeus foram perdoados.
    Entretanto Alan Touring não ficou esquecido por nós e pelos outros grandes gênios que vinheram a trabalhar com computação depois dele, a prova maior é o simbolo da Apple que é em sua homenagem , que de forma genial Steve Job , prestou- lhe este tributo. A maçã embebida em cianureto e com um pedaço mordido.

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  2. Vera HCM Barbato - 18 de Março de 2015 07:48

    É muito duro e difícil ter em si qquer tipo de diferença. Certíssimo dizer que o mundo o matou, mas antes o isolou e marcou pela diferença que vivia. Como lhe disse, não sei até onde vai a liberdade poética do filme, mas para mim ele retratou um Asperger, o que explica de forma ainda mais clara as dificuldades de Alan para se inserir no jogo social e arrebanhar ainda mais olhos tortos ante a sua inabilidade. De novo, parabéns ! Silva, pode caducar, a irmã merece !

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    1. salvia - 18 de Março de 2015 15:24

      Também vi nas entrelinhas do filme esta característica nele, Vera! Uma inabilidade com o trato social de forma generalizada. Isso acarreta um sofrimento sem tamanho. O que me anima é saber que a Psicologia e a Psiquiatria evoluíram bastante e hoje as pessoas já tem mais consciência das limitações emocionais a que todos estamos sujeitos. Obrigada por suas palavras, querida! beijos

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  3. Edjard - 18 de Março de 2015 01:14

    Você retrata muito bem a grande problemática do preconceito e da subjugação dele decorrente. Mas eu sou um otimista Sálvia, acredito que nem que seja daqui a 1000 anos Alan Turing será redimido, pois precisou um intervalo de tempo da mesma grandeza para que outro, Sócrates, que forçamos a se envenenar fosse redimido.
    Parabéns pelo belo texto!

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    1. salvia - 18 de Março de 2015 15:22

      Minhas amigas dizem que sou pessimista, Edjard! 😉 Obrigada pela leitura e pelo comentário! É uma alegria dividir minhas ideias com meus queridos leitores. Abraços!

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  4. Silvia Haddad - 17 de Março de 2015 13:06

    Minha irmã querida, agradeço ao Criador pelo dom q lhe agraciou.. suas palavras sensibilizam e são totalmente libertas de qquer preconceito..deve ser muito gratificante ter em mãos o instrumento certo p tocar o coração das pessoas e chamá-las a reflexão.. Lov U Forever!!

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    1. salvia - 17 de Março de 2015 15:01

      Escrever me faz tão bem, Sílvia, e talvez por isso faça com o coração. 😉

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