O copiloto deprimido

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          Essa semana foi impossível não acompanhar o caso do copiloto Andreas Lubitz, que provocou a queda do airbus da Germanwings nos Alpes franceses, matando 150 pessoas. A tragédia chamou a atenção do mundo para a questão da avaliação psicológica de pilotos. Em algumas reportagens, ouvi um deles afirmar que nas entrevistas periódicas lhes era perguntado em termos gerais sobre suas vidas e logo seguia-se a bateria de exames físicos.

O menosprezo com que é tratado o psicológico do ser humano não mais me assusta porque percebo isto constantemente. Mas descobrir que pilotos de elite - que carregam em seus ombros uma enorme responsabilidade e trabalham em empresas renomadas no mercado internacional de aviação - não são acompanhados de perto por profissionais da saúde mental, isso sim me assusta.

Ao mesmo tempo que me deparo com evoluções magníficas na área da psicologia e psiquiatria, vejo uma tragédia estarrecedora como esta.

Em minha primeira obra - Mel e Fel - tratei desse assunto na crônica TERAPIA, demonstrando meu espanto diante do preconceito com o tratamento psicológico. E o texto cai como uma luva para o tema de hoje:

" (...) o tratamento psicológico é ainda um tabu e prevalece a ideia de que esse tipo de ajuda profissional existe para aqueles que, em dado momento, pensam que são Napoleão Bonaparte.

Todo mundo tem a falsa sensação de que consegue administrar suas emoções de forma satisfatória. Há também uma recusa em perceber-se necessitado dessa ajuda. Parece que reconhecer nossa necessidade de ajuda para organizar sentimentos é uma carta de confissão de loucura ou de incapacidade de lidar com sua própria vida."

Como eu dizia na ocasião, e repito agora, o psiquismo sempre fica em segundo plano. Ninguém imagina o poder de nossas emoções sobre nossa vida. Quem poderia imaginar que um homem de 28 anos, copiloto com boa formação, oriundo de família de classe média e com um histórico, digamos, mais ou menos normal, seria capaz de planejar um ato desses? Se soubessem que isso poderia acontecer, garanto que as sessões periódicas de avaliação psicológica não seriam tratadas com tanto desdém.

Não é preciso viver uma tragédia pessoal para chegar à conclusão de que, muitas vezes, precisamos de ajuda. As emoções estão aí todos os dias e não é fácil lidar com elas. Andreas mesmo, até onde li sobre o caso, não parece ter sofrido um grande trauma e causou uma das maiores tragédias dos últimos tempos. Por dentro algo estava sendo gestado há tempos, mas ninguém olhou direito, ninguém parou com calma para observar os sinais.

Acontece que quando nossa doença é física, ela geralmente aparece, está ali para quem quiser ver. Já quando a ferida é psíquica, pode sangrar anos a fio sem ninguém perceber que aquele ali do lado está entrando em choque hipovolêmico. Parece-me que foi assim o caso de Andreas. Já andava tendo hemorragia na alma fazia um tempo, tinha medo de não poder mais pilotar e com este medo e outros seguia passando despercebido pela multidão.

A 'depressão' de Andreas arrastou-o para a morte. Mas não só ele. Haviam mais 149 pessoas dentro do avião. E a meu ver, o culpado pelo acidente não foi o copiloto desequilibrado. Os culpados foram todos aqueles que tinham a obrigação de acompanhar a saúde física e mental daquele rapaz e não o fizeram; todos aqueles que tinham o dever de impedir a entrada de alguém minimamente comprometido no avião; aqueles que tinham o dever de estar atentos a qualquer comportamento suspeito e falharam. Como culpar o vento se deixei as janelas abertas?

Investigação pra lá, investigação pra cá. E eu só penso é na família, porque no final nada disso adiantará muito. Como quer que seja, com ou sem responsáveis apontados, quem vai amargar estas perdas são os familiares, os órfãos, as viúvas, as mães e pais que não mais verão seus filhos, estes que mal aparecem nos noticiários que informam sobre as buscas pelas caixas pretas.

Que fique a lição: precisamos compreender, de uma vez por todas, que dentro de nós há um mundo de emoções que não aceita mais ser menosprezado, que não leva mais o desaforo pra casa.

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