O beijo gay

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Acompanhei a polêmbeijogayica sobre o beijo gay da novela Babilônia. Em princípio, não pensei em escrever sobre o assunto porque já havia abordado a homossexualidade na semana passada. Mas quando vi que o tal beijo tinha virado polêmica - não posso ver uma polêmica -, suscitando até boicote, voltei atrás e decidi escrever.

Primeiro gostaria de ressaltar que não sou fã da Rede Globo. Muito menos sua defensora. Exceção feita para meia dúzia de programas, também não gosto da grade de programação. E também sinto saudades de um tempo em que as novelas traziam um conteúdo mais leve. Dito isso, sinto-me à vontade para prosseguir.

A novela traz um conteúdo que, a meu ver, não difere dos temas corriqueiros tratados por suas antecessoras. Ou estou enganada e aborto, corrupção, homossexualidade, conflitos familiares por poder e dinheiro são temas inéditos? O que eu não entendo é o espanto, como se esta fosse a primeira vez que esses temas estivessem sendo abordados em uma novela.

O programa atacado é impróprio para menores, e assim sendo, é exibido em horário avançado. De cara já se presume que os pontos tratados são para adultos, o que abre a possibilidade para assuntos mais indigestos.

É diferente, por exemplo, do bombardeio de propagandas de brinquedos no canal infantil Discovery Kids, com mensagem subliminar direcionada ao estímulo do consumo desenfreado. O absurdo reside no fato de ser um canal totalmente dirigido ao público infantil, que pela idade, não possui qualquer tipo de filtro. Muito diferente, portanto, de uma novelas das 21h.

Os adultos - presume-se - possuem filtros e podem ser expostos à qualquer tipo de assunto, podendo fazer uso de seu julgamento de valor. Por isso não vejo qualquer problema em falar de homossexualidade.

Se você, mesmo ciente de que a novela é para adultos, não gosta dos temas abordados, utilize aquele aparelho revolucionário chamado controle remoto. Se o beijo de Teresa e Estela, interpretadas por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, causaram-lhe espanto, desligue, mude de canal.

E vale lembrar que, independente do horário, a casa é sua e nela quem manda - ou deveria mandar - é você, portanto qualquer programa que você considere inadequado pode ser vetado.

Outra questão é que, definitivamente, o estarrecimento da sociedade com temas azedos não está distribuído de forma justa. A novela que acabou de encerrar, mostrou um filho assassinando seu próprio pai por poder. Avenida Brasil, a de mais sucesso nos últimos tempos, falou de quê? Dos mesmos temas de Babilônia. E eu não vi nenhum movimento de boicote. Então meu filho pode ver roubo, violência, casal hétero indo às vias de fato, assassinato, casamento por interesse, mas beijo gay não? Morro e não entendo.

A realidade se impõe. Não quer ver na novela, mas verá no passeio de domingo no shopping. E até mais de perto. As pessoas tem direito de fazer suas opções e devem ser respeitadas. Você não precisa concordar com o beijo. Mas não pode impedir o beijo de quem queira. Então, respeite.

E meus filhos? Seus filhos, assim como os meus, enquanto pequenos não devem assistir a novela das 21h e nem qualquer outro programa que os exponha à conteúdo impróprio para idade. E quando tiverem idade, é hora de sentar na mesa redonda e abrir o diálogo para o respeito à diferença.

Não escolha a novela como bode expiatório. Não culpe a novela pela sua dificuldade de dialogar com seu filho. Seres humanos adultos e independentes, se não prejudicam ninguém, podem fazer suas escolhas.

Outro dia Daniela Mercury tornou público seu casamento com uma mulher. Se tudo der certo, elas serão "Teresa e Estela"daqui uns anos. A família as respeita e as ama. Não fazem nada de mal, são independentes e bem sucedidas. Ponto.

A cantora Adriana Calcanhotto perdeu recentemente sua companheira de 26 anos, Susana de Moraes, filha mais velha de Vinicius de Moraes. E declarou: "Fui a mulher mais feliz do mundo nestes 26 anos em que estive com ela. Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos amigos, que teve uma vida extraordinária e que viveu cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida." Outro exemplo de "Teresa e Estela". Ponto. Como ser contra isso?

Eu passei minha infância vendo filmes e novelas em que as pessoas fumavam. E olha que meus pais nos recolhiam as 19h. Naquela época, o combate ao fumo nem existia e fumar era considerado até chique. Houve quem foi influenciado por isso. Houve quem não foi. E assim será sempre.

Ninguém fuma ou bebe ou é homossexual ou heterossexual porque viu na novela. Há tantos e tão complexos fatores envolvidos nisso que apontar a novela como causa determinante é um raciocínio grotescamente reducionista.

O cigarro, as drogas, a felicidade, a vontade de vencer, as bebidas, as adversidades da vida, a realização profissional, a homossexualidade e tudo mais de bom e de ruim está no mundo, e não na novela. A novela apenas retrata a realidade. E o mundo, desculpem, a gente não desliga.

Seu filho não vai ser isso ou aquilo - e aqui incluo alcoólatra, ladrão, honesto, assassino, respeitador, responsável - apenas porque viu na TV. Todos conhecemos pessoas que vieram de um ambiente extremamente hostil e tornaram-se pessoas maravilhosas, como por exemplo, o contador de história Roberto Carlos Ramos. E também aquelas que viveram num ambiente considerado saudável e tornaram-se assassinos cruéis, como por exemplo, Suzane Von Richthofen. Como disse, as variáveis são inúmeras.

Então ao invés de perder seu tempo fazendo boicotes inúteis, tome as rédeas da situação. Desligue a TV no horário que julgar correto, proteja os menores enquanto eles ainda não podem fazer isso por eles mesmos; com os mais velhos, ensine o diálogo e o respeito, eduque seu filho para a diferença.

E se, assim como eu, um dia andando pelo shopping for questionada por seu filho sobre o beijo de um casal homo logo ali, responda que eles se gostam. Ponto. Bola pra frente. Vida que segue. O mundo não vai acabar por isso. Aliás, ele já está acabando e não é por isso mesmo. Mais respeito, menos hipocrisia; mais coerência, menos falso moralismo.

8 comentários em “O beijo gay”

  1. sandra - 26 de Março de 2015 07:36

    Fantástico. Endosso todos os pontos. ……. eh a vida como ela é… apenas retratada na telinha
    Sandra Almeida

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    1. salvia - 26 de Março de 2015 09:58

      A vida não se desliga! 🙂 .. Beijos

      Responder
  2. Eduardo - 24 de Março de 2015 21:39

    Mesmo com toda a proximidade que a amizade proporciona, não deixo de me surpreender com a lucidez cartesiana que você trata temas tão ásperos e caros a, não só um convívio harmônico em sociedade, mas sobretudo à construção de uma sociedade justa, solidária e plural.

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    1. salvia - 25 de Março de 2015 12:14

      Vindas de você, estas palavras tem até maior peso. Obrigada, meu amigo querido! Um dos primeiros a me ensinar, com seu jeito de ser, que todos somos iguais, independente de nossas preferências afetivas.
      🙂

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  3. Ivanna Saraiva - 24 de Março de 2015 19:46

    Concordo com tudo q vc escreveu!! penso da mesma forma e disse p meu filho qdo fui abordada sobre o tema q o importante é o amor entre as pessoas e q ele tinha q respeitar a escolha de cada um.

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    1. salvia - 25 de Março de 2015 12:11

      Educação para a diferença! Simples assim. 😉

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  4. Luiza Simonetti - 24 de Março de 2015 13:49

    Perfeito! Continuem beijando. Toda forma de amor é válida e precisa ser respeitada.

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    1. salvia - 25 de Março de 2015 12:10

      Verdade, querida Luiza! Bjs

      Responder

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