Mudança: Jazidos e Berços

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Essa semana, depois de 12 anos aqui, mudança à vista. As mudanças de casa na minha vida sempre foram dramáticas. Nunca foi apenas o ato de mudar de casa, sempre acontecia em meio à algo muito importante deixado pra trás e algo não menos significativo me esperando na próxima esquina.

Da primeira vez sai de casa por conta de minha gravidez. Meu pai, machista e provinciano, não aceitou o fato de eu, solteiríssima, estar grávida. Foi uma mágoa imensa. Na época, não achava justo ser expulsa de casa por isso. Hoje, tenho certeza que não foi. Enfim, mudei.

Sai da casa dos meus pais assim, pela porta dos fundos. Deixei o aconchego da convivência com minha mãe e irmãs, a comida pronta feito mágica, o ar-condicionado voltando a funcionar simplesmente porque eu saia de casa avisando à minha mãe que ele estava com defeito, a roupa limpa sem ter que comprar o sabão em pó.

Perdi tudo isso e enfrentei uma nova casa e uma nova vida, sozinha, com meu filho recém-nascido. Essa nova vida incluía o vale-transporte da cozinheira, o telefone da assistência técnica e a compra do sabão em pó. Por mais que eu desejasse o “abracadabra”, a mágica não mais acontecia.

Na segunda vez eu mudei para me casar. Deixava pra trás - ou tentava - aquela fase tão solitária e sofrida, cheia de medos e incertezas, onde tudo pareceu desmoronar. Apostei num amor que me trazia tudo o que eu sempre havia sonhado. De novo: algo grande sendo deixado; algo grande à minha espera.

E desta vez parece-me não será diferente. Com dez anos de casamento, muitos risos e conquistas, derrotas e lágrimas, mais dois filhos e uma viuvez na mala, eis que me mudo outra vez. Algo grande fica; um grande desafio vem.

Minhas mudanças de casa esperam grandes acontecimentos para acontecerem junto com elas. Mudar por mudar, porque a casa é bonita, porque a vizinhança é agradável, porque o condomínio aumentou? Assim não tem graça. Tem que ter vida. Tem que ter morte. Tem que ter drama.

Minhas mudanças querem sempre encerrar um espetáculo e logo abrir as cortinas do outro que, espera- se, será bem melhor - embora nem sempre o seja.

São sempre marcantes minhas mudanças. São jazidos e berços: enterram um ciclo e recebem outro. E eu vou com elas, morrendo e nascendo de novo a cada casa; morrendo no que foi vivido e nascendo para novas experiências; morrendo no sofrimento que ficou e nascendo nas promessas dos novos dias.

Eu gosto que seja assim. Não desejo que seja diferente. Esse movimento ajuda a perceber com clareza e serenidade o tic-tac do relógio, o aumentando minha idade, a juventude que aos poucos se vai, abrindo espaço para maturidade que tanto acalma.

Que seja sempre assim: que a cada nova casa eu encontre jazido e berço, porque assim também é vida, porque assim também é a morte: acaba aqui para reiniciar mais adiante.

5 comentários em “Mudança: Jazidos e Berços”

  1. Sigrid Edwards - 5 de agosto de 2015 18:37

    E que o novo ciclo seja lindo, com os desafios que sempre farão parte, mas também com toda força e resignação necessárias para seguir “adelante”

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  2. kalina cohen - 15 de julho de 2015 11:53

    Que esta mudança seja um renascer feliz! 😉

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    1. salvia - 15 de julho de 2015 12:10

      Assim seja! beijos

      Responder
  3. Cristina Saavedra - 14 de julho de 2015 10:59

    Menina, és bem corajosa mesmo. Mas fiquei curiosa: já arrumou a poha da mala? Rs
    Boa sorte na nova casa!

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    1. salvia - 14 de julho de 2015 14:36

      Felizmente desta vez quem leva as roupas é a empresa de mudança, Cris! Beijos e obrigada!

      Responder

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