Fera Ferida

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Existem tantas músicas que falam de amor perdido de forma tão profunda e conseguem transmitir a aguda angústia peculiar ao fim de uma relação. Incrível como elas falam a mesma língua embora tenham sido escritas por pessoas diferentes, em épocas distintas, a respeito de relações diversas. Não importa. Elas são irmãs gêmeas, porque o traço comum não muda: o coração partido.

Ouvi uma dessas esta semana e a letra não me saiu mais da cabeça: Fera Ferida, letra de Roberto Carlos. Mas poderia ser da Amy Winehouse, do Frank Sinatra ou minha, ou sua. Qualquer um que viveu algumas décadas já saiu ferido de uma relação, sufocando o gemido, com roupas sonhos rasgados na saída – assim mesmo desse jeitinho.

A canção fala de alguém que por natureza é arisco, conhece os perigos do envolvimento e a fragilidade de alguém apaixonado, não é estreante nas agruras do amor. Mas também lembra que animal domesticado, esquece o risco, não olha pra trás e solta-se sem rumo em seus passos. Deixa-se enganar. E esquece mesmo. E deixa-se mesmo. Do amor e da cachaça, dizemos não apenas enquanto dura a ressaca, dizia o ditado.

E a melodia segue sentenciando que mesmo despedaçados, vivemos. Também se vive morrendo aos poucos por amor – revela o compositor em outra estrofe. E como! Para matar alguém dentro de nós, também morre-se todo dia um pouco. É a sina de quem é abandonado: desfazer os passos na tentativa infeliz de esquecer.

Depois, mais adiante, resta às cicatrizes a sorte de contar o que não foi esquecido. É nelas que ficam os rastros das dores agonizadas ao longo dos anos de vida. Quem não as tem que atire a primeira pedra. Sou fera ferida, no corpo, na alma e no coração.

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