Divórcio

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Divórcio

É sempre difícil decidir separar-se. Não menos difícil é aceitar a separação imposta pelo outro. Mas, às vezes, chegamos a esse ponto: decidir se vamos nos dar uma nova chance, para, no futuro, depois de digerido todo sofrimento que sempre permeia uma separação, poder experimentar o que realmente seja uma união feliz. Gostaria muito de sempre poder incentivar as pessoas a lutar pelo seu casamento. Por imperativo de convicção religiosa, afinal sou cristã, preferiria ter sempre em mãos esse discurso. Às vezes, até tenho. O relacionamento está desgastado, mas ainda há sentimento e muitos ajustes podem ser implementados para a relação engrenar. Tão bom quando é assim! Tão bom ver um casal tentando de novo. Mas existem casos que não permitem esse discurso e eu não o faço, agora por imperativo de amizade e lealdade, porque há casamentos que deixaram de ser casamentos. Ou nunca foram. O texto não se encaixa, porque muitos, quando chegam a esse ponto, já não se relacionam como pessoas que se uniram para crescer e se amar. De há muito, vivem um emaranhado de cobranças e justificativas que sinalizam uma relação doente e incapaz de gerar frutos felizes. Quantos artifícios e mentiras são necessários para sustentar uma relação deteriorada? Inúmeros. Nesses casos, a tristeza é uma realidade inegável. O sofrimento também. O casamento é um projeto de vida no qual injetamos muito esforço e sentimento. Quando tudo não foi suficiente, a frustração é inevitável. Em pensar o quanto pensamos e planejamos, para no fim, por assim dizer, dar tudo errado. Sempre que casamos - pelo menos deveria ser assim - pesamos prós e contras, avaliamos afinidades, fazemos nossa conta emocional e, para chegar ao altar, ela não ficou no vermelho. Com tudo isso, não deu. Mas nem por isso se perde o mérito por ter sido criterioso, cuidadoso e honesto nas escolhas feitas. Não podemos desvalorizar nossa boa conduta porque nunca perdemos ao agir corretamente, ainda que o ganho não salte aos olhos em algum momento. Devo dizer que há algumas separações menos traumáticas e, passado aquele primeiro momento, as pessoas conseguem ter a paz que tanto almejam. Já outras se arrastam por anos, as feridas são expostas, a relação inteira é remoída, quem deu mais, quem ficou faltoso aos olhos de quem, quem lutou e quem jogou a toalha, razões de parte a parte sempre existem porque ninguém é incoerente com sua história. Agora é chorar o quanto for necessário e esperar que o luto bem vivido faça renascer. E não estou julgando! Há pessoas que precisam mesmo de um período mais longo para poderem se reerguer. Horrível ficar com coisas mal resolvidas e não ditas. Até adoece. Mas o certo é que, depois de algum tempo, estabiliza-se a situação e a paz chega nos dois casos. Ou deveria chegar. Afinal, não é porque nos separamos que todas as desgraças do mundo recaem sobre nós por todo o sempre. E há os filhos. Desejar boas coisas aos filhos é um anseio intuitivo. Mas hoje eu tenho a certeza de que muita coisa foge ao nosso controle. Essa certeza me acalma. Podemos conduzir a vida da melhor forma, e ainda assim, não teremos a garantia de que, mais adiante, nossos filhos escolherão o que é melhor para eles. Da mesma forma, escolhas erradas dos pais não representam escolhas erradas dos filhos. Mais importante do que ter pais casados é ter pais felizes e amorosos, que se preocupam conosco. A estrutura emocional que esse amor presente nos proporciona é o maior valor a ser considerado. E casamento não é garantia desse amor. É claro que o ideal é experimentar tudo isso dentro de uma união feliz, mas nem sempre é possível. Mais vale o exemplo de buscar a felicidade, ainda que fora do casamento, do que condenar-se a viver numa relação doente por toda uma vida. E ainda há os que dizem que quem se separa fica mais pobre. Pelo contrário. Conforto nenhum justifica cárcere emocional. Na verdade, se o processo for bem vivido e conduzido, saímos enriquecidos, porque liberdade e felicidade são bens de valor inestimável!

4 comentários em “Divórcio”

  1. Jalbert Cardozo - 23 de setembro de 2013 23:05

    Uma relíquia essa crônica … parabéns !

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    1. Sálvia Haddad - 24 de setembro de 2013 08:13

      Obrigada Jalbert! Espero que tenha gostado do site! Abços

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  2. Jeibson Justiniano - 8 de setembro de 2013 18:23

    Parabéns, Sálvia!!!

    Os seus textos são realmente profundos e de uma qualidade inestimável!

    Vou continuar acompanhando sua produção literária.

    Responder
    1. Sálvia Haddad - 8 de setembro de 2013 21:19

      Obrigada, amigo! Recebo suas palavras como incentivo muito grande! E te espero no lançamento de Mel e Fel!

      Responder

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