Cuidado em Comprimidos

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O ser humano nasce frágil e dependente. E suspeito que, embora não pareça, permanece assim até o final. E esta fragilidade humana reclama cuidado.

Na infância, os pais por excelência são os provedores dessa necessidade de ser cuidado. Outros podem vir a substituí-los sem problemas, mais importante que o 'quem' é o 'se' esta necessidade é atendida.

A infância passa, mas não passa a vontade de estar sob as asas de alguém: quem não quer um colo ou um toque reconfortante quando chove na vida? Não me consta que isso seja dispensável em alguma fase da vida.

Mas a verdade é que muitas vezes perdemos isto, a vida e seus movimentos nos retiraram as oportunidades de viver o cuidado: os pais se vão, os filhos crescem, relações desfeitas e acontece do aconchego tornar-se uma lembrança já distante.

Proteção e segurança faz falta. Adoece. Cuidado em cápsulas não seria má ideia: venderia como água e seria como antibiótico para uma infecção - questão de vida ou morte! Mas dedicação e carinho não se vende, não está por aí nas prateleiras das lojas de conveniência , então muitos de nós seguem infeccionados. Doses de zelo e proteção, onde se encontra?

Enquanto o afeto curativo não vem, espera-se, ardendo em febre, carência incômoda que anseia por uma trégua nessa luta sem fim, por um braço que se estenda em nossa direção.

E se não for por merecimento, que seja por caridade: misericórdia sempre foi bom argumento. E se não for o ideal, que seja satisfatório: nem todos são exigentes. E se não for para sempre, que seja por este verão: nem todos desejam a eternidade do outro.

3 comentários em “Cuidado em Comprimidos”

  1. Sigrid Edwards - 5 de agosto de 2015 18:41

    Muito bom … Muito bom … Reflexão para hoje

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  2. Ana Regina - 21 de julho de 2015 10:28

    Sálvia

    A dimensão afetiva é discutida cotidianamente não apenas nas escolas, mas também no âmbito familiar e social.
    É relevante pontuar que a criança ao nascer já tem uma série de conexões estabelecidas com os pais, principalmente com a mãe. O vínculo materno é de grande importância para o desenvolvimento e essa ruptura ou substituição pode acontecer assim como acontece pelas circunstâncias da vida de cada ser humano. No entanto, problemas são fatos neste momento e a psicologia até a psicopedagogia explica os impactos na aprendizagem e relações desta criança.

    Nos dias atuais vivenciamos uma sociedade desestruturada com inúmeras rupturas, desigualdades, impotências, lacunas seja na dimensão afetiva, social e cognitiva. Você tem razão quando fala deste aconchego, proteção e cuidado. É o que me pergunto diariamente como professora, pedagoga, psicopedagoga: Como eu posso contribuir com este movimento contrário da sociedade em que o ser humano desaparece dos processos? São vistos como números, índices, produto, resultado?

    Refleti bastante com o seu texto. O ser humano precisa de uma ressignificação, o seu valor foi “pelos ares” e é papel de cada um reorganizar isso. As pessoas precisam ser vistas, ouvidas, percebidas em sua totalidade, pois somos seres cognoscentes: “pensamos, sentimos, agimos e ainda precisamos interagir”.

    Quero esses comprimidos aí do cuidado, atenção e aconchego como você fala no texto! Minha realidade profissional precisa em sala de aula.

    Grande abraço. Espero ter contribuído.

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    1. salvia - 21 de julho de 2015 10:40

      Contribuiu, e muito, Ana!! Você tem razão quando diz que o ser humano desapareceu dos processos. Desapareceu mesmo! A nós nos cabe remar contra esta relutante maré! Obrigada por acompanhar meus escritos e por enriquecê-los com suas palavras. Beijos

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