Colcha de retalhos

Posts

Outro dia percebi que minha vida familiar transformou-se numa colcha de retalhos. No aniversário de meu mais velho, resolvi chamar a família para um jantar íntimo. Mas que família?A dele, respondi à mim mesma. A resposta é simples mas a realidade não acompanha a austeridade da resposta. A primeira família de meu filho é a minha e a de seu pai: nossos pais, irmão e irmãs. E depois, cunhados e sobrinhos. Muitos, devo dizer. Mesmo após o fim de nosso relacionamento, graças ao equilíbrio e bom senso de todos envolvidos, a tristeza e o descontentamento aos poucos saíram de cena e as relações familiares foram preservadas. Hoje a família de seu pai é também minha família. Depois, casei-me e ganhei de presente mais uma família: outra sogra e cunhadas amigas. Junto veio ainda outros cunhados e sobrinhos queridos que vi crescer a cada dia. Achei que ficaria por aqui isso de colar pedaços de família. Mas não. Depois de anos de casamento e mais dois filhos, meu marido se foi. Deixou de herança os laços construídos durante anos de convivência. Então a família dele passou a ser minha família também. Após um duro processo de luto, encontrei meu namorado, que veio com tudo que eu tenho direito: cumplicidade, paixão, sintonia, apoio. E aí, de repente, ganho a quarta família: nova sogra, enteadas lindas e novas cunhadas e sobrinhas. Olha só no que deu essa lista do jantarzinho em família: meus pais, três filhos, três irmãs, dois cunhados, dois sogros, três sogras, duas enteadas, quatro cunhadas, mais de dez sobrinhos. E todo esse povo anda por aí meio costurado em nós. E haja água para colocar nesse feijão. Devo confessar que, por um tempo, me bateu uma tristeza, senti minha vida rasgada por várias vezes, e por isso estava ali, toda remendada. No que se transformou minha família? Não há como deixar de lembrar que, por um motivo ou por outro, não mais existe aquilo que nos uniu. Depois percebi algo de muito belo nisso tudo: apesar das dificuldades, cultivamos nossos laços. Cada um deu sua parcela de esforço e amor, porque não é fácil atravessar um deserto e sair lá adiante de mãos dadas. Ponto pra mim. Ponto pra eles. No jantar daqui de casa - e também no meu coração - todos eles tem cadeira cativa, assento de primeira classe. Porque deixar que pessoas tão próximas de nós por tanto tempo partam sem cerimônia? As relações acabam e não nos esforçamos para preservar o que subjaz a isso: seu filho não tem culpa se sua mulher não quer mais ser sua mulher, sua sogra não tem que pagar o preço da distância de seu amado neto porque seu marido - o filho dela - pulou a cerca e o casamento acabou, sua irmã não pode ser punida por ter construído com sua cunhada um laço de amizade. Rompimentos sempre resvalam nos mais próximos, é verdade. Mas o tempo passa e a vida é curta. Daqui cem anos nenhum de nós estará aqui para lamentar essa estória boba dos desentendimentos causados pelo seu divórcio. Perdões concedidos e mágoas depuradas, sigamos em frente. A escolha chega a ser matemática: somar ou diminuir? Nisso tudo, eu escolhi somar. Sempre somar. Sempre que der. E na soma daqui de casa, mesmo com todos os retalhos que foram costurados na nossa colcha, é ela e apenas ela que consegue aplacar o frio de todos nós."

12 comentários em “Colcha de retalhos”

  1. Graça - 10 de novembro de 2015 19:13

    Só tive um filho e ele duas namoradas firmes, mas na vida tudo muda tão de repente . Casou com alguém q mal conhecia e para nós pais foi uma surpresa. Meu relacionamento com as ex sempre foi de muito amor e carinho, mas sua esposa jamais aceita q o nome seja pronunciado ou fotos em minha casa. Penso que respeito, mas ela também teria q respeitar anos de convivência. Elas fizeram parte de um passado meu.
    Então, minha colcha não tem muitos retalhos, infelizmente.

    Responder
    1. salvia - 11 de novembro de 2015 12:08

      Pena, querida! Obrigada por acompanhar o blog! Beijos

      Responder
  2. Flávia Frota Cavalcanti - 8 de outubro de 2015 00:46

    Sálvia, quanta beleza em suas palavras e sabedoria em suas atitudes! Também tenho uma [ex] cunhada que é minha BCF – Best Cunhada Forever. Parabéns e felicidades!

    Responder
    1. salvia - 9 de outubro de 2015 21:19

      Gostei do BCF, Flávia! Beijos

      Responder
  3. Luciana Veloso - 7 de outubro de 2015 17:17

    OI Sálvia,
    Há um tempo não lia seus posts. E cada vez que leio acho sublime o jeito que você se comunica. Textos leves e de uma sensibilidade imensa.
    O bonito da vida realmente é construir os laços fraternos.
    Esperando o próximo post!
    🙂

    Responder
    1. salvia - 7 de outubro de 2015 22:10

      Oi Luciana! Sabe que me bate a maior alegria quando alguém revela que acompanha meus escritos? … Que sentido teria escrever se minhas palavras não chegassem ao coração do outro? Bjs

      Responder
  4. Roselene - 7 de outubro de 2015 14:43

    Adoro ler vc, me traz emoções que compartilham meu dia.
    Escrevo também é sei que nos alimenta o tricotar das emoções. Vivaaaaaaaaaahhhhhhhh muito bom…..

    Responder
    1. salvia - 7 de outubro de 2015 14:50

      Obrigada pelas palavras de incentivo, Roselen! Continue passando por aqui, escrevo para vcs.

      Responder
  5. Bianca Barreto - 7 de outubro de 2015 14:09

    Concordo plenamente com o comentário acima!! Adoro ler seus posts!! Sempre fico esperando o próximo, também! Me serve como e inspiração é exemplo, pois sei que todos eles são baseados em sua história de vida, que é de extrema superação e resiliência!! Parabéns!!!

    Responder
    1. salvia - 7 de outubro de 2015 14:49

      Obrigada amiga Bianca! beijos

      Responder
  6. Frsncisco Christo - 7 de outubro de 2015 06:45

    Como sempre um texto enxuto, de fácil entendimento, de grande carpintaria literária e muita emoção. Aliás vc é pura emoção, pois seus posts mostram isso é muita leveza também, como no posts de reencontros das colegas de colégio, em cada posts vc dosa esses pesos , quase chegando a extrema perfeição. Parabéns, mas uma vez ler seus posts é uma delícia, ao ponto de ficar a esperar do próximo.

    Responder
    1. salvia - 7 de outubro de 2015 10:06

      Que bom saber desse gosto de quero mais na boca… Nada melhor! Obrigada por acompanhar o site, Francisco!

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *