O Cemitério e Eu

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imageDia de Finados. Ir ao cemitério desperta-me a vontade de refletir. É chegar lá e meu pensamento começa a voar. Já sou nostálgica por natureza, mas nessas horas piora. Na minha família, sempre tivemos o hábito de prestar culto aos mortos, participando dos rituais fúnebres quando algum familiar falece. Visita ao cemitério era obrigatória no Dia dos Finados. Quando meu irmão morreu, aos 16 anos, tudo foi vivido por nós de forma mais intensa ainda. E prolongada. Velório, enterro, missa de sétimo dia, mensais e anuais, idas ao cemitério aos domingos. Anos assim. Luto fechado. Nada de festas para ninguém da família por um ano. Minha mãe usou branco por três anos. Isso tudo me marcou muito. Eu nem pude festejar meus quinze anos porque fazia aniversário antes de meu irmão completar um ano de falecido. Ainda bem que eu não queria festa mesmo, optei por viajar à Europa. Essas restrições ensinaram-me a ter muito respeito pela partida de quem amamos e pela nossa própria dor, sofrimento dos que ficaram. Também aprendi que, de alguma forma, nossas atitudes devem guardar relação com o momento doloroso que vivemos, com o pesar carregado no coração. Então aprendi a ir ao cemitério e sinto-me bem quando vou. E ontem fui novamente. Tarde linda, nublada, ventava um pouco. Todos em volta da lembrança de seus entes queridos. Cheirava a saudade o lugar. Fui com meu filho mais velho porque quero ensinar a ele o que aprendi. Meus avós, meus tios, meu irmão, meu marido. Tanta história para contar, tanta vida para recordar. A morte é uma realidade muito dura. Outro dia estavam aqui. Meu irmão ajudou meu pai na construção do jazigo da família, levava as placas de mármore. Eu mesma fui com ele uma vez. Não sabia que, depois de pronto, apenas uns meses depois, ele seria o primeiro a ocupar o lugar. Meu marido jamais foi lá. Não ia ao cemitério, não enterrou o pai nem a avó. Eu tentei convencê-lo várias vezes, em vão. Só foi para lá carregado. Literalmente. Gostando ou não, um dia vamos todos. Por isso que eu vou logo, e gostando. Ontem tive vontade de ficar por lá sem hora para voltar, olhando o movimento, as lágrimas derramadas, as sepulturas, as velas, as flores. Tudo tem um significado. Quem andou por lá ontem, visitando, pode ser o visitado de amanhã. Eu mesma posso. Pensar no fim é sempre angustiante. Ou não. Pode ser libertador. E o cruzeiro? Todas aquelas pessoas acendendo velas para os seus que noutra terra foram sepultados, como se aquela pequena luz da vela pudesse chegar ao mausoléu de quem se ama. E pode. Gesto cheio de simbolismo. A visão do cruzeiro cheio de velas é bela demais. Vi a ala dos indigentes. Outra realidade que me leva a refletir. Sem vínculo na vida, sem vínculo na morte. Recentemente descobri que eles são usados para estudo nas faculdades de medicina. Tendo sido descartados em vida, prestam-se a tão nobre missão em morte. Contraditório isso! A tarde caia e meus pensamentos não paravam de brotar. Iam duvidar de minha sanidade se eu confessasse que não queria ir embora. Mas aquele lugar parecia ter tanto a me dizer, parecia pedir-me que ficasse. Não fiquei. Estou até agora com vontade de voltar e terminar minha conversa com o cemitério. Talvez volte outro dia. Agora não, por hoje chega.

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