Aquarela

Posts

Aquarela A música Aquarela sempre mexeu muito comigo. É de uma abstração enorme. É atemporal. Na melodia, por uma simples aquarela passa o mundo. Seria tão bom se pudéssemos desenhar a vida como o compositor desenha na aquarela o que ele deseja: um sol amarelo, com cinco ou seis retas faz-se um castelo, faz-se o mundo, de uma América a outra em um segundo. Havaí, Pequim, Istambul. Um lindo avião rosa grená que, se a gente quiser, ele vai pousar! Que delícia! Mas a parte que mais me encanta é a que diz assim: “E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está. E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar, não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá e o fim dela ninguém sabe bem ao certo aonde vai dar.” Depois do sentimento imenso de liberdade e imaginação que as primeiras estrofes nos trazem, vem a realidade. Quem não se assusta com a incerteza do futuro? Nós, no máximo, tentamos pilotar essa astronave. É tudo que podemos fazer. Mas, ainda assim, não temos garantia nenhuma, aliás, como em quase tudo na vida. Eu escrevi essa estrofe num cartão para um namorado. Nós dois sabíamos que não dava mais certo, cada um iria seguir seu caminho em direções diferentes. Foi um momento forte pra mim porque encerrava dois ciclos em minha vida: um acadêmico – graduando em Direito - e outro afetivo. E naquele momento em que escrevia o cartão, em lágrimas, imaginava justamente o que a música propunha e muito me assustava o convite que o futuro teria a me fazer: rir ou chorar. Após o término, o futuro acabou me convidando a chorar, e muito, infelizmente. Ou não. Não sei se a palavra certa é convite, porque convite podemos recusar. Acho que o futuro nos entrega mesmo é uma intimação. Foi um período de grande sofrimento, mas também de muito amadurecimento. Alegria é péssima professora. Nunca vi ninguém melhorar e amadurecer no júbilo. Essa música me acompanhou em muitos outros momentos. E claro que, depois desse período, recebi convites para sorrir também. E depois para chorar de novo. Detesto convite para chorar, embora reconheça que o sofrimento é necessário e inevitável. Lindo mesmo é o jeito como a música termina. Cita alguns dos desenhos imaginados durante a canção – a aquarela, o sol amarelo, o castelo – e anuncia que todos eles descolorirão. No final das contas, tudo descolorirá! Todo desenho descolore, todos nós nos vamos um dia. E vem dizer isso logo pra mim, que acompanhei alguém descolorir bem pertinho de mim. E quase descolori junto. Meus tons ainda estão pastéis. A canção também fala que o futuro não tem piedade. E não tem mesmo. Compaixão passou longe. Um dia estava feliz e grávida, aguardando a chegada da minha filha para completar a família. No outro, tudo havia desmoronado. Cadê o aviso tipo save the date? Não há. Ando de novo com o mesmo sentimento daquele dia em que escrevi o cartão para o namorado, muito assustada com os convites que o futuro terá a me fazer. Queria ficar bem quietinha para ver se ele me esquece e não me convida mais para nada. Abro mão de sorrir, se for para não ter de chorar. Tenho mesmo é muito medo dessa astronave!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *