Anonimato

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Fascina-me a ideia da solidão. Sensação de liberdade e soltura, sem amarras. Na distância, o único laço que permanece é com Deus, porque Ele em mim habita. Quando só estou, nada pode afetar o silêncio que existe em mim. Observo o movimento das pessoas, a rua de pedras, estreita, roseiras pendendo a formar um arco-íris de flores, coisa de cidade pequena, escondida e encantada. E eu no anonimato: aqui ninguém sabe de mim, de onde venho,  o que carrego. Sou mais uma. Não sou mãe,  não sou filha, não sou viúva e nem amiga. Compromisso com ninguém. E assim, sem lenço e sem documento, penso sobre a importância dos acontecimentos em nossa vida. Qual peso damos a eles quando nos distanciamos de tudo? A mim parece-me que tudo fica mais longe e leve. Será que enfim consegui fugir? De repente me invade a vontade de por aqui ficar. E recomeçar. Sim, eu sei que podemos recomeçar em qualquer lugar, mas os novos parecem ter cheiro de reinício, estão sempre sugerindo novas descobertas. A diferença no ambiente, concreta do lado de fora, dispensa licença para entrar e logo convida à mudança. Recomeçar onde a dor nos encontrou parece não ter a mesma graça. No lugar de sempre, a mudança tem que vir de dentro, alterando nosso olhar e sentir para o que não é novidade. Por isso tantos viajam após um trauma ou uma grande desilusão: faz todo sentido passar um tempo fora, novos horizontes nos inspiram, animam e mudam a perspectiva. Paisagens que os olhos não estão habituados a contemplar, odores que despertam os sentidos, sabores que ensinam a riqueza do paladar. A festa, portanto, acontece por todos os poros, de todos os ângulos, sob as formas mais variadas. O mundo amplia-se adquirindo nova forma, tomamos consciência da pequenez de todos nós e a partir daí nos reinventamos para seguir, saímos do casulo deixando para trás a vida de lagarta, para viver agora de outra forma, como borboleta. Um brinde à solidão. Um brinde aos novos lugares. Um brinde aos recomeços.  

2 comentários em “Anonimato”

  1. Francisco Christo - 30 de setembro de 2015 03:55

    Minha querida Sálvia, como sempre os seus posts são escritos com uma poesia sem igual, no qual vc pensa em cada palavra. Entretanto quero colocar alguns pontos que as vezes confundimos: solidão social e solidão sentimental.
    Desde que saímos das cavernas há mais de 40 mil anos, não conseguimos viver socialmente só, agora no fato da solidão sentimental, certamente compartilho com vc a mesma ideia e pensamento, mas minha querida amiga, o quê é a vida se não um eterno recomeço, sei muito bem que é duro e amargo, mas vc é o maior exemplo que com muitas lágrimas, dor intensa na alma, dedicação e diciplina podemos reverter tudo na vida basta querermos.
    Como sempre os seus posts muito profundos e bastante tocantes a alma. Parabéns por mais um post publicado e estou a espera do próximo. Vc pra mim é 10

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    1. salvia - 30 de setembro de 2015 12:38

      Sim, Francisco, a vida é de fato um eterno recomeço. Obrigada pelas palavras de incentivo. Abraços 😉

      Responder

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