AMOUR

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Ontem, enfim, assisti o filme Amour, drama francês dirigido por Michael Haneke e ganhador do prêmio Palma de Ouro 2012. O diretor é conhecido por seu estilo direto e cruel. Eu não precisaria ter lido as críticas para perceber que sobre Haneke, não paira uma gota de sentimentalismo.

O filme retrata a vida de um casal na velhice. O longa não fala sobre a juventude dos dois, mas dá pistas de que a relação é daquelas de dar inveja à qualquer solitário convicto. São companheiros no mais amplo sentido que esta palavra pode ter.

Após um derrame, Anne (Emmanuelle Riva) apresenta sequelas e Georges (Jean-Louis Trintignant) desdobra-se para cuidar da companheira. A situação é irreversível e a piora será constante até o derradeiro fim. À Georges resta apenas assistir – de camarote – a este espetáculo de horrores, entremeado por uma visita do antigo aluno e as idas esporádicas da filha do casal, que mais parece uma estranha no ninho que, inclusive, foi seu. O cenário é deprimente.

Este filme me fez pensar – ainda mais, se é que é possível – sobre a velhice e sobre o quão doloroso pode ser este processo. O cotidiano do casal é uma amostra grátis. E assusta aos iniciantes nos contextos lascinantes da vida.

O Chigaco Sun-Times, em crítica especializada, avisa: a velhice não é para os fracos – a segunda grande lição do filme. Não, envelhecer não é para qualquer um.

E a primeira? Vamos à ela: sempre fui contra a eutanásia. O primeiro filme que levou-me a pensar sobre o assunto foi Mar Adentro, com Javier Bardem – imperdível, por sinal. O segundo foi Amour.

Neles eu estreei ao considerar que matar, de repente, pode ser um ato de amor. Sim, isso mesmo. Esta pergunta permanece ressoando em meus ouvidos: Matar pode mesmo ser um ato de amor? Eu não me atrevo a responder. Mas posso afirmar que, anos atrás, responderia categoricamente um sonoro não. Hoje eu me calo.

Poderia eu advogar que não havia amor em Georges (Amour) e em Rosa (Mar Adentro), se tudo que vi neles foi amor? As setas apontam para mesma direção, que eu me recuso a seguir, por medo e por espanto, aqueles próprios das novas e surpreendentes descobertas.

Diante de mistérios insondáveis, o silêncio é a resposta mais prudente. Diante do desconhecido, a atitude menos pretensiosa. No espaço misterioso do subjetivo, calar-se não deixando assento vago para prepotência.

Esta é então a primeira grande lição do filme: matar como ato de amor.

Porém, o mérito maior, acima até mesmo das lições pessoais aprendidas, é ensinar que não há mais espaço para verdades absolutas, e que até mesmo um ato extremo, registrado em nosso inconsciente coletivo como um ato de odiosidade, pode, ao final, revelar a face mais generosa do sentimento mais nobre que existe entre nós: o amor. Reflitamos sobre o Amour.

2 comentários em “AMOUR”

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