A Pena de morte

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Eu acompanhei, estarrecida, o caso do fuzilamento dos dois brasileiros, Marco Archer e Rodrigo Gularte, na Indonésia.

A pena de morte é algo que me choca pela soberba pretensão de um Estado julgar-se legítimo para punir alguém determinando o fim de sua vida. De onde vem esta superioridade moral para condenar indivíduos à morte? Sem mencionar o estado psíquico do último brasileiro, que por si só justificaria, ao menos, um adiamento da execução. Sem falar na irracionalidade do tratamento exclusivamente penal dado à multifatorial questão das drogas.

Já há um consenso internacional a respeito da pena de morte, vista como algo degradante, uma afronta à dignidade do ser humano, consenso totalmente ignorado pelo governo indonésio.

Muitos defenderam a morte para os brasileiros considerando que outros tantos morreram em razão do tráfico. É verdade. Mas o que muda com a morte destes brasileiros? As pessoas deixarão de morrer em razão das drogas? Não. O problema não será resolvido. As mortes dos brasileiros apenas engrossou a lista de vítimas das drogas.

Porque eu sou contra a pena de morte? Essa polêmica questão me faz lembrar de uma famosa crônica de Rubem Alves, na qual ele conta uma história que é mais ou menos assim:

Havia dois irmãos. Um deles herdou um belo campo, o outro um charque, e logo todos lamentaram o azar que sobre aquele homem recaiu. Ao que o homem respondeu: se é bom ou se é ruim, apenas o tempo dirá. Pouco tempo depois, veio uma seca que assolou a região e o charque se tornou terra fértil. E logo todos encheram-se de júbilo: que benção! Ao que o homem respondeu: se é bom ou se é ruim, apenas o tempo dirá. Meses depois, o reino passou por uma recessão e o rei confiscou as terras férteis. Todos visitaram o pobre homem para prestar-lhe solidariedade. Ao que o homem respondeu: se é bom ou se é ruim, apenas o tempo dirá. Dias depois, o rei penalizou-se com aqueles que haviam perdido suas terras e mandou que fossem presenteados com um belo cavalo real.   Todos o felicitaram, ao que o homem respondeu: se é bom ou se é ruim, apenas o tempo dirá. Seu filho montou o cavalo e numa queda, quebrou dolorosamente a perna. A comoção foi geral. Ao que o homem respondeu: se é bom ou se é ruim, apenas o tempo dirá. A guerra veio e todos os jovens foram convocados para defender o reino, menos o filho daquele homem, porque estava com a perna quebrada. Se é bom ou se é ruim, apenas o tempo dirá.

Lá pelas tantas, o cronista anuncia que a história não tem fim, que não há vitória que garanta o sucesso em nossas vidas e nem derrota que encerre qualquer possibilidade de recomeço. Na vida, nada é definitivo, apenas ela, a morte. Nenhuma absolvição, nenhuma condenação, nenhum evento por si só tem a capacidade de impor-se impávido.

Por isso sou contra a pena de morte e também contra a pena perpétua. Porque acredito no que Rubem Alves disse, acredito que ninguém pode retirar a possibilidade que a vida em si representa, acredito que ninguém tem o direito de sentenciar o outro de forma definitiva. Não acredito nas definitividades impostas pelos homens, tão ou mais falíveis que aqueles sentados no banco dos réus.

6 comentários em “A Pena de morte”

  1. Francisco Chtisto - 5 de Maio de 2015 21:28

    Sou totalmente contra a pena de morte, por não vê nesta penalidade qualquer razão para tal, quanto a prisão perpétua , infeliente existem pessoas com doenças mentais que não podem ter convívio com a sociedade, em outros casos de prisão perpétua sou contra pelo próprio princípio do direito penal sobre as penalidades ao cidadão infrator, na qual visa o cumprimento da pena e a ressocializacao do infrator a sociedade. Quanto ao poder do Estado sobre a violência institucional e a vida do cidadão , indico um bom livro do filósofo francês Michel Foucolt. “Vigiar e Punir” , livro imprescindível para entender o monopólio do estado sobre a violência

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    1. salvia - 5 de Maio de 2015 21:36

      Questão complexa mesmo, Francisco. Obgd pela indicação de leitura! Abraços

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  2. Elizabete Cruz - 5 de Maio de 2015 19:43

    Aqueles que se acham detentores da vida do outro, há muito ja perderam sua própria vida. Quem garante que, num último segundo, aquele que atentou contra as leis divinas possa reconsiderar seus atos, querer transformar-se e responder pelos seus erros, trabalhando em benefício daqueles que colocou a vida em risco, nesse caso, o dependente químico.
    só Deus tem o poder de lançar mão da vida que Ele criou. Por esses e outros argumentos, sou contra a pena de morte.

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    1. salvia - 5 de Maio de 2015 21:38

      O direito ao arrependimento é negado a estas pessoas. Um absurdo mesmo, Elizabete. Obgd! Bjs

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  3. Sigrid Edwards - 5 de Maio de 2015 15:01

    Sálvia Haddad, que reflexão linda. Não me conformo também com essa prepotência de alguns seres humanos que se fantasiam de Estado para decidirem quem continua e quem está fadado ao fim. Difícil … muito difícil

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    1. salvia - 5 de Maio de 2015 21:37

      Prepotência, esta é a palavra! Obgd pelo comentário. Bjs

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