A mala e o desapego

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Ano passado decidi fazer um curso de Direito Comparado na Itália. E após toda organização necessária para minha casa seguir por duas semanas sem mim, chegou o dia de arrumar a mala.

Eu odeio fazer as malas. E claro que adio isso o quanto posso. Procrastino até não poder mais. Não sei porque  esse ato passou a mexer tanto comigo. Já pensei que pode ser a ideia de me ausentar que me incomode, sair do meu canto virou um problema de uns anos pra cá. Também considero desgastante pensar no que levar, no que deixar, o que combinar, o que não esquecer. Dos remédios ao protetor diário de calcinha. Quando faço as malas parece que vou para guerra ou para algum campo de refugiados.

Talvez seja a minha necessidade de controle gritando histericamente ao ser esfaqueada nessas ocasiões em que a rotina sai completamente de cena. Talvez seja a ansiedade de deixar as crianças. O medo de avião que também dá uma boa temperada nesse caldo.

Descobri que fazer as malas diz muito de nós. Olha só o tanto que já coloquei de mim nesse processo!

Pensei em desafiar-me: viajar por um longo período apenas com uma bolsa de mão. Não para me obrigar a aprontar as malas mais rápido ou para descobrir as peças coringas que tenho no armário. Não.

Iria fazer isso para exercitar o desapego. Não precisamos disso tudo, certo? A realidade nos apresenta opções como necessidades, a gente cumprimenta e não desgruda mais da nova amiga, sem saber que ela é acessório. Não é de verdade essencial. E na hora da mala nada é opcional. Vai que… E se … Põe mais um casaco na bagagem.

Acontece que, pensando dia desses, cheguei à conclusão de que talvez nunca leve a cabo este desafio. Isso porque a questão pode parecer superficial, mas não é. Fazer as malas talvez seja algo simples. Mas as minhas dificuldades e limitações associadas ao ato não são. No fim das contas, o desapego nem deve ser o problema já que não me considero uma mulher apegada às coisas.

O mais difícil tem a ver com sentimentos mais profundos: deixar a casa, deixar meu canto, deixar os filhos, sair da minha zona de segurança, tudo que mais teme quem sofre de transtorno de ansiedade. E tudo isso cabe bem ali, na minha mala. Arrumar blusas, suéteres, saias e sapatos é fácil. Arrumar ansiedade, medo e insegurança é que são elas.

11 comentários em “A mala e o desapego”

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