A casca de noz de Hamlet

Posts

Essa semana assisti uma palestra de Leandro Karnal, historiador e professor da Unicamp, doutor pela Universidade de São Paulo com publicações sobre História, História da América e História das religiões.

Foi-lhe perguntado a respeito da super exposição da vida das pessoas nas redes sociais. Uma pergunta simples, que aparentemente pede uma simples resposta. Mas quando se tem bagagem intelectual, qualquer resposta vira magistério.

Karnal inicia mencionando que a era das redes sociais permitiu maior participação das pessoas em questões das mais variadas, mais intercâmbio de informação no mundo que, segundo ele, poderá – quiçá – elevar o conhecimento a patamares mais altos. E atribui isso à tecnologia hoje inserida em nossas vidas.

Então estamos obtendo e trocando informações como nunca antes. Mas – e aí Karnal revela sua real preocupação – quem está realmente atento à isso? Se você tem trinta grupos de chat, perfis no face, insta, twitter e snapchat, o que você está realmente absorvendo disso tudo?

Não há como negar que, diante de tantos perfis, nosso tempo seja consumido apenas com as atualizações de todos eles. Estamos incrivelmente ocupados com o mundo virtual, conclui o professor. E é verdade. E se assim o é, qual seria o sentido de tudo isso? Reflexão a ser feita por todos nós.

O palestrante então leva o debate à uma reflexão filosófica: quem sou eu que preciso estar presente em tantos lugares para que tanta gente me veja? E perdido na “necessidade” de estar em tantos espaços, de fazer-se presente ainda que de fato ausente, predomina a fala informativa, restando pouco ou nenhum espaço para a fala reflexiva.

A fala informativa, ensina ele, prescinde do pensar, e porque digo sem pensar, digo mais e mais, e porque digo muito, o que digo perde o valor e o sabor. E eu prossigo falando e falando sem perceber que a quantidade do que falo é diretamente proporcional ao tamanho do vazio de minhas palavras.

Ao contrário, a fala reflexiva exige pensamento, é rebuscada. E quando penso no que digo, geralmente digo menos, e quando o faço, minhas palavras tem peso. O pensar é filtro natural do dizer. Conclusão: quem muito fala pouco diz. E as redes sociais tornaram-se o piscinão de ramos dos que falam sem dizer nada.

Quando achei que já tinha ouvido o melhor, o professor abre outro gancho reflexivo: quando não encontramos sabor nas coisas que vivemos e fazemos, nós multiplicamos estas coisas, tal qual na fala informativa. E para encontrar o tal sabor seguimos vivendo e fazendo outras tantas coisas, então viaja-se, tira-se fotos, posta-se, inveja-se, revida-se e por aí vai.

Se não posso estar comigo, eu preciso estar em outros lugares: no face, no insta, nos grupos, nas fotos, nas viagens, nos comentários. Em todos os lugares.

E finaliza brilhantemente exaltando a célebre frase de Hamlet, na qual o dramático personagem de Shakespeare afirma: “Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito.” A capacidade de ser feliz com pouco. A graça e a beleza de bastar-se dentro de si.

E eu finalizo perguntando: quem no mundo – onde impera a necessidade de estar – pode sentir-se rei do espaço infinito vivendo numa casca de noz? Um desafio de David nos dias de hoje.

9 comentários em “A casca de noz de Hamlet”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *